O que te construiu não precisa te definir
Levamos muita coisa conosco sem saber explicar direito o porquê. Escolhas antigas, crenças formadas numa época em que ainda não tínhamos recursos para formar coisa nenhuma, conclusões que tiramos sobre nós mesmos num momento de dor e que o tempo foi transformando em verdade, porque ninguém mais as questionou depois. E, assim seguimos vivendo como se rever tudo isso fosse uma espécie de deslealdade com quem fomos, como se mudar de ideia sobre nós mesmos significasse trair a própria história.
Heráclito, filósofo grego que viveu por volta do século V a.C, dizia que não nos banhamos duas vezes no mesmo rio, porque tanto o rio quanto quem se banha já não são os mesmos na segunda vez. O rio segue correndo mesmo quando estamos parados na margem. O jeito que você lidava com as dificuldades aos vinte anos raramente é o mesmo que ainda sustenta você aos quarenta… sem que isso desmereça nada do que veio antes. Apenas revele que aquilo cumpriu seu tempo, como cumprem seu tempo tantas coisas que seguimos mantendo por costume, por medo do que seria ficar sem elas.
Nilton Bonder, rabino, escreveu que o verdadeiro crime do ser humano é poder se dar uma volta a qualquer momento e não o fazer. Guardamos crença, mágoa, jeito de amar, jeito de trabalhar, jeito de nos relacionarmos com o próprio corpo, porque aquilo nos é conhecido, e conhecido, para muitos de nós, já significa segurança, mesmo apertando, mesmo custando mais caro do que sair dali custaria.
Vamos acumulando, ao longo dos anos, crenças sobre o que merecemos, sobre o que somos capazes, sobre o amor, sobre o sucesso, sobre o que seria uma vida bem vivida. Parte vem da educação que recebemos, parte das experiências que atravessamos, parte de momentos difíceis em que precisávamos, com urgência, de alguma explicação para o que estava acontecendo, e qualquer explicação servia – porque explicação organiza o caos por dentro – ainda que nascida mais do medo do que da compreensão, ainda que fosse só uma tentativa de dar sentido ao que doía demais para ficar sem sentido.
É como aquela roupa guardada há anos no fundo do armário, que já não veste, que não está ali porque é útil, mas porque nos acostumamos com a sua presença, e desfazer-se dela costuma doer mais do que continuar acumulando. O familiar sustenta esse lugar de permanência não porque seja bom, mas porque já sabemos como ele funciona. Enquanto o novo pede outra disposição inteiramente diferente, a de abrir mão de uma certeza conhecida para experimentar uma pergunta ainda sem resposta.
Donald Winnicott, psicanalista inglês, falava de um falso self construído para proteger e para agradar, uma couraça montada nos primeiros anos de vida quando ainda não tínhamos outra forma de garantir afeto e sobrevivência. O autoconhecimento tem menos a ver com descobrir quem somos e mais com perceber, aos poucos, aquilo que já deixamos de ser, reconhecer um padrão que se repete só porque virou hábito, notar uma crença que segue dirigindo escolhas mesmo depois de ter perdido toda a função que um dia teve.
É aí que a terapia costuma entrar, ajudando a enxergar o que sozinhos raramente enxergamos, mapeando repetições, ampliando consciência, abrindo outras formas de olhar para a própria trajetória. O que nos aconteceu faz parte de quem somos, porém nunca é o limite de tudo que ainda podemos ser. Somos maiores do que os medos que carregamos, do que as conclusões tiradas nos dias mais difíceis, do que as versões que criamos apenas para sermos aceitos ou para pertencer a algum lugar.
Reconhecer quando algo já cumpriu seu papel, agradecer por ter servido no seu tempo, e seguir mais leve, sem a obrigação de carregar para sempre o que já não cabe em quem estamos, aos poucos, nos tornando.













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