O processo que nos salva

 Existe uma queda que não é ruína, mas o chão se refazendo debaixo dos nossos pés. Ana Matos

O processo que nos salva quase nunca se parece com salvação enquanto está acontecendo. Ele se parece com bagunça, com dúvida, com aquela sensação de estar no meio de alguma coisa que ainda não tem nome, e é justamente por isso que tanta gente abandona o caminho na metade, cansada de esperar um alívio que demora a chegar.

O que salva raramente faz barulho. Na maioria das vezes ele é silencioso e repetitivo, e por isso mesmo tão difícil de sustentar diante dos outros, que costumam entender apenas o resultado, a versão já organizada da história. Salva o instante em que você deixa de fingir que não vê, e o que você vê, finalmente, é que aquela dinâmica insiste em se repetir, que aquela relação te diminui aos poucos, que aquela escolha há muito não conversa mais com quem você está se tornando. Perceber nunca foi leve, perceber inaugura responsabilidade, e essa responsabilidade cobra de nós o abandono de uma inocência que sustentávamos sem saber que também sustentava as nossas próprias feridas.

Freud dizia que era preciso tornar consciente aquilo que permanecia inconsciente, e essa frase,  exige de quem se propõe a atravessá-la algo bem concreto, reconhecer que fizemos parte das histórias que nos feriram, não como culpados, mas como alguém que repetiu o que já conhecia, porque era a única linguagem de amor e de medo que havíamos aprendido a falar. E quando a consciência chega ela desorganiza, porque o sintoma nunca foi apenas sofrimento, ele também organiza a vida, sustenta vínculos, preserva um lugar de pertencimento, mesmo quando esse lugar já dói mais do que protege.

Processo é desmontagem antes de ser qualquer outra coisa. É o momento em que a explicação confortável de que a culpa foi sempre do outro começa a se abrir, com resistência, para perguntas mais incômodas, o que em mim tolerou aquilo, o que em mim repetiu, o que em mim tinha tanto medo de perder que preferia continuar se perdendo. Carl Gustav Jung, o psicanalista suíço que dedicou a vida a estudar os símbolos e os arquétipos que habitam o inconsciente, chamaria esse movimento de individuação, o caminho de nos tornarmos quem realmente somos e não quem fomos moldados a ser, um caminho que jamais acontece sem ruptura, afinal para que algo mais verdadeiro apareça é preciso que algo adaptado, construído para agradar e para sobreviver, comece a ceder.

Processo é esse intervalo entre a queda de uma máscara que já não cabe e a formação de um rosto que ainda está se desenhando. É quando você já não consegue sustentar o personagem, mas também ainda não está inteiramente reconciliada com quem emerge por baixo dele, um território de incerteza, de luto e de ambivalência, e é justamente ali, nesse meio desconfortável, que alguma coisa começa a nos salvar de verdade. Salva de continuar vivendo uma vida que funciona muito bem por fora e se esvazia por dentro. Salva de ser reconhecida apenas pelos papéis que exercemos e nunca pela presença que oferecemos. Salva, sobretudo, de confundir adaptação com maturidade, coisa que fazemos com tanta naturalidade que raramente percebemos o engano.

O mundo aplaude resultado, não atravessamento, e por isso quase ninguém enxerga que é justamente no meio do processo que deixamos de terceirizar as próprias escolhas, que aprendemos a sustentar limites que antes evitávamos por medo de desagradar, que compreendemos, aos poucos e com algum sofrimento, que a consciência pesa, porém a inconsciência cobra um preço ainda maior, disfarçado de normalidade. Há processos que nos transformam e há processos que nos salvam, e a diferença entre eles talvez esteja em algo bem simples, você não se salva porque tudo finalmente melhorou, você se salva porque um dia decidiu não continuar anestesiada, porque escolheu atravessar em vez de fugir, mesmo sem nenhuma garantia do que a esperava do outro lado.

Um salve, então, às crises que pareceram fracasso e eram, olhando com mais distância, o início de uma honestidade que ainda não sabíamos nomear. Às terapias que nunca devolveram respostas prontas, mas nos devolveram as perguntas que há anos evitávamos fazer a nós mesmos. Aos términos que doeram como queda e que, com o tempo, revelaram-se apenas realinhamento. E à coragem de permanecer no meio, sem correr para a próxima distração, porque é ali, onde nada está pronto e tudo continua sendo revisto, que a gente deixa de sobreviver e começa, enfim, a existir.

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