Mulher diante de um espelho quebrado simbolizando o processo de autoconhecimento e o encontro com a própria sombra

Conhecer a si mesmo também é descobrir aquilo que não queremos ver

Quando começamos um processo de autoconhecimento, costumamos imaginar que vamos encontrar respostas, compreender melhor nossas escolhas, descobrir nossas qualidades, reconhecer talentos que estavam escondidos e, de alguma forma, nos aproximar de uma versão melhor de nós mesmos. E isso acontece. Ao olhar para dentro, podemos descobrir capacidades que não reconhecíamos, perceber recursos que sempre estiveram conosco, compreender melhor aquilo que fazemos bem e enxergar possibilidades que estavam encobertas pela falta de confiança, pelo medo ou simplesmente pela falta de atenção a nós mesmos. Existe uma parte bonita nesse encontro, aquela em que começamos a reconhecer quem somos sem precisar esperar que o outro nos diga.

Só que o autoconhecimento não é, somente, sobre isso.

Na verdade, em muitos momentos ele começa a ficar mais interessante justamente quando deixamos de encontrar apenas aquilo que gostaríamos de encontrar. Porque, quando olhamos com honestidade para nós mesmos, também encontramos a nossa impaciência, a nossa inveja, a nossa dificuldade de ouvir, a necessidade de ter razão, o orgulho que nos impede de pedir desculpas, a tendência de julgar aquilo que fazemos parecido com o que condenamos no outro. Encontramos comportamentos dos quais não nos orgulhamos, percebemos que também podemos ser difíceis, que também magoamos, que também decepcionamos pessoas e que, em algumas histórias, não fomos apenas aqueles que sofreram.

Isso não é uma descoberta confortável. Ainda assim, é uma descoberta necessária.

No meu livro, quando escrevo sobre a sombra, parto justamente dessa ideia de que somos feitos de dualidades e que precisamos reconhecer tanto a nossa luz quanto aquilo que preferiríamos esconder. A sombra não deixa de existir porque não gostamos dela, e muitas vezes aquilo que não reconhecemos em nós acaba sendo projetado no outro, que passa a carregar características que também nos pertencem. Reconhecer essa parte menos bonita não significa aceitar qualquer comportamento como se tudo fosse justificável; significa assumir que somos humanos, que temos contradições, desejos, fragilidades e limites, e que o conhecimento de nós mesmos também passa por essa honestidade.

Existe uma diferença entre reconhecer uma característica e se definir por ela. Por exemplo: eu posso perceber que sou impaciente sem concluir que sou uma pessoa ruim. Posso reconhecer que em determinadas situações ajo de maneira egoísta sem transformar isso numa sentença sobre quem sou. Posso descobrir que tenho dificuldade para admitir que errei e, a partir dessa descoberta, começar a observar o que acontece comigo quando sou contrariada. Posso perceber que, em alguns momentos, quero controlar aquilo que não está sob o meu controle. Posso descobrir que magoei alguém mesmo quando a minha intenção não era essa.

Quando começo a enxergar essas coisas, deixo de precisar ser a pessoa certa o tempo inteiro. E, acredite, isso liberta.

Liberta porque não precisamos mais gastar tanta energia tentando sustentar diante de nós mesmos uma imagem de perfeição que nunca existiu. Podemos reconhecer uma qualidade sem transformá-la em vaidade e reconhecer uma dificuldade sem transformá-la em condenação. Podemos olhar para aquilo que fazemos de bom e, ao mesmo tempo, ter coragem para olhar para aquilo que ainda precisa ser trabalhado.

Foi por isso que, no meu livro, O caminho para o inevitável encontro consigo mesmo, escrevi que precisamos reconhecer nossos pontos fracos, potencializar nossos pontos fortes e buscar esse olhar para podermos nos desenvolver e evoluir. O processo de se conhecer não acontece uma única vez, como se em determinado momento recebêssemos um certificado dizendo que finalmente descobrimos quem somos. Ele exige observação, prática, erros e acertos, porque nós também estamos em movimento.

E quanto mais conseguimos reconhecer a nossa própria complexidade, mais difícil fica olhar para o outro de uma maneira tão simples.

Quando reconheço em mim a raiva, compreendo melhor que o outro também pode sentir raiva. Quando reconheço a minha insegurança, consigo olhar para determinadas reações alheias com menos pressa para classificá-las. Quando percebo que também posso ser injusta, que também interpreto situações a partir das minhas próprias dores e que também tenho pontos cegos, começo a compreender que o outro não é apenas aquilo que fez comigo.

Isso não significa justificar o comportamento de ninguém. Significa compreender que pessoas são muito mais complexas do que os recortes que fazemos delas.

Outro ponto do meu livro, quando falo sobre empatia, chego justamente a essa relação entre conhecer a si mesmo e conseguir conhecer o outro. Entrar em contato conosco, observar o que sentimos, reconhecer nossos julgamentos e perceber o que acontece dentro de nós é apresentado como um caminho para desenvolver essa capacidade de estar diante do outro com mais presença. O autoconhecimento, nesse sentido, não nos fecha em nós mesmos; ele pode nos aproximar do outro de uma maneira mais real.

Penso que uma das maiores contribuições do autoconhecimento esteja justamente na possibilidade de interromper algumas certezas que temos sobre nós e sobre as pessoas. Ou seja, eu não sou apenas aquilo que faço de bom – também não sou os meus erros. Não somos seres excludentes, somos inteiros. E ser inteiro signifique ter dentro de nós o bom e o ruim; o bem e o mal.

Sou essa pessoa que pode amar e sentir raiva, acolher e se irritar, acertar e errar, cuidar e, em determinados momentos, ferir. Sou capaz de generosidade e de egoísmo. Posso ser corajosa numa situação e extremamente insegura em outra. Posso compreender alguém profundamente em determinado momento e julgá-lo injustamente em outro. A consciência dessa dualidade não diminui quem somos. Ela nos torna mais responsáveis por aquilo que fazemos com aquilo que somos. E essa responsabilidade pode mudar a relação que temos conosco.

Afinal, quando conheço as minhas dificuldades, posso cuidar delas. Quando reconheço aquilo que me faz bem, posso fortalecê-lo. Quando percebo um padrão que se repete, posso começar a entender de onde ele vem e o que ele produz na minha vida. Quando descubro uma ferida, posso parar de exigir que as pessoas ao meu redor paguem por uma dor que não causaram. Quando reconheço que também posso errar, fica mais possível pedir desculpas, reparar, mudar.

A terapia pode participar desse processo justamente porque nem sempre conseguimos enxergar sozinhos aquilo que está diante de nós. O terapeuta como alguém que pode nos ajudar a enxergar sentimentos e comportamentos, articular aquilo que trazemos e encontrar sentidos que, muitas vezes, estavam presentes na nossa história sem que conseguíssemos percebê-los.

Conhecer a si mesmo, portanto, não deveria ser uma busca pela versão mais bonita de nós. Deveria ser uma aproximação cada vez maior daquilo que somos.

Com nossas qualidades, nossos talentos, nossas fragilidades, nossos desejos, nossos limites, nossas contradições e com aquilo que ainda precisamos aprender a fazer diferente. Investir no caminho do autoconhecimento não nos torna perfeitos, nos torna mais conscientes.

E uma pessoa mais consciente de si pode escolher melhor como agir, pode assumir mais responsabilidade pelo que coloca nas relações e pode compreender que cada encontro também é afetado pela pessoa que ela leva para dentro dele. Sabemos que as relações são construções feitas por pessoas e que, para evoluirmos nelas, precisamos observar continuamente nossos sentimentos, pensamentos e comportamentos.

No fim, o autoconhecimento não é apenas sobre viver melhor consigo mesmo. É também sobre aquilo que fazemos com a vida do outro quando entramos nela.

É sobre a maneira como amamos, como escutamos, como discordamos, como colocamos limites, como pedimos, como recusamos, como reparamos aquilo que fizemos de errado e como conseguimos permanecer em uma relação sem precisar transformar o outro em culpado por tudo aquilo que não conseguimos olhar em nós.

Começamos por nós e continuamos em “nós”.

E, quando esse encontro se aprofunda, muda a forma como olhamos para o mundo.

Passamos a compreender que ninguém é feito apenas de qualidades, que ninguém é apenas a sua pior escolha, que todos carregamos partes que conhecemos e outras que ainda estamos aprendendo a reconhecer. E isso não nos torna iguais, mas nos torna mais humanos diante uns dos outros.

Se conhecer é um exercício de honestidade. E ser honesto consigo mesmo não é descobrir que somos melhores do que imaginávamos. É descobrir que somos inteiros.

E, a partir daí, aprender a ser melhores para nós mesmos, para aqueles que amamos e, de alguma forma, para o mundo que ajudamos a construir todos os dias.

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *