Desconstruir o papel de vítima: a travessia do ressentimento ao protagonismo

Desconstruir o papel de vítima é um dos processos mais difíceis e importantes do amadurecimento emocional. Ninguém se torna refém de si mesmo de forma repentina. Ser capturado por um padrão mental, emocional e comportamental não acontece da noite para o dia. Há uma história. Há camadas. Há um enredo que se repete em silêncio até se cristalizar como identidade. E entre essas repetições silenciosas, nasce o vitimismo – não como capricho, mas como defesa. Não como encenação, mas como tentativa de sobrevivência psíquica.

A pessoa que ocupa o papel de vítima não está encenando deliberadamente. Ela está se relacionando com a realidade a partir de um filtro profundamente enraizado: o da injustiça, do abandono, da expectativa não correspondida. Em muitos casos, trata-se de uma resposta psíquica a um passado onde suas necessidades emocionais não foram vistas, reconhecidas ou legitimadas. Quando, por exemplo, o ambiente familiar não ofereceu acolhimento, ou quando o amor veio condicionado à obediência ou à dor, a criança aprende, ainda muito cedo, que sofrer é uma das poucas formas de ser percebida.

O problema é que esse padrão se perpetua. E o que inicialmente era uma tentativa de sobrevivência, transforma-se num modo de ser no mundo – um lugar onde a dor se torna uma identidade, e a impotência, uma espécie de zona de conforto. Como nos mostra Verena Kast em seu livro Abandonar o papel de vítima: viva sua própria vida, essa estrutura psíquica é paradoxal: ela limita, mas também protege; adoece, mas oferece segurança emocional. A vítima crê que não pode, que não consegue, que não sabe — mas, ao mesmo tempo, se exime da responsabilidade de mudar. O vitimismo, portanto, opera como uma anestesia da autonomia: preserva do sofrimento do enfrentamento, mas mantém preso ao sofrimento da estagnação.

Verena Kast, psicoterapeuta junguiana, propõe que o papel de vítima deve ser interpretado como um arquétipo: um modelo psíquico coletivo que se ativa em determinadas situações de dor ou crise. Quando o Self é ameaçado, seja por uma rejeição, uma perda, um trauma ou um acúmulo de pequenas frustrações, o arquétipo da vítima emerge como um recurso inconsciente de proteção. O problema se instala quando essa postura se torna fixa, quando a dor deixa de ser um evento e passa a ser uma morada.

E é nesse ponto que a desconstrução se torna urgente.

Porque manter-se no papel de vítima pode até oferecer consolo momentâneo, mas cobra um preço alto: a desconexão com o desejo, a paralisia da ação, a repetição de vínculos disfuncionais e a perda da potência criativa. A pessoa passa a viver dentro de um ciclo onde tudo confirma sua impotência. As frases são conhecidas: “Nada nunca dá certo pra mim”, “Ninguém me reconhece”, “As pessoas deveriam saber o quanto eu me esforço”. O mundo torna-se um espelho que apenas reflete abandono, injustiça, invisibilidade.

Na base desse comportamento, segundo Kast, há uma necessidade infantil não atendida: ser vista, reconhecida, amada sem condição. Mas a repetição desse pedido, na fase adulta, já não mobiliza o que se deseja. Ao contrário: afasta, confunde, rompe.

A psicologia analítica propõe que, para romper esse ciclo, é necessário integrar a sombra — aquilo que foi negado, reprimido ou distorcido dentro de nós. E o vitimismo, nesse sentido, é uma sombra coletiva: é difícil reconhecer-se como alguém que manipula afetos para ser amado, que evita o protagonismo por medo de errar, que transforma dor em moeda de troca emocional. Mas é justamente esse reconhecimento que possibilita a transformação.

Como escreve Viktor Frankl, sobrevivente do Holocausto e criador da Logoterapia:

“Tudo pode ser tirado de um homem, exceto uma coisa: a última das liberdades humanas, escolher sua atitude diante das circunstâncias da vida.”

 

Frankl não diz isso como um clichê de autoajuda, mas como alguém que viu a degradação humana em sua forma mais brutal. O que ele nos propõe é o resgate do poder de decisão mesmo no caos. E esse é, talvez, o maior antídoto contra o vitimismo: a consciência de que somos livres para escolher a forma como interpretamos, reagimos e respondemos àquilo que nos acontece.

Mas atenção: abandonar o papel de vítima não é negar a dor vivida. Muito pelo contrário. É dar a ela outro lugar na narrativa. É reconhecer que a dor existiu, teve sua função, mas que não precisa mais comandar a história. É como diz Gabor Maté, médico e pensador contemporâneo da psique e da dor:

“Não somos responsáveis por aquilo que nos aconteceu na infância, mas somos responsáveis por aquilo que fazemos com isso hoje.”

 

Essa responsabilidade não vem com peso, mas com poder. A vítima vive na expectativa de que o mundo perceba sua dor e lhe ofereça reparação. O protagonista compreende que a reparação não vem de fora — ela é uma escolha interna, diária, árdua, mas possível.

Desconstruir o vitimismo é, portanto, um gesto profundo de amadurecimento emocional. É sair da espera passiva para assumir a autoria. É parar de dramatizar para começar a elaborar. É transitar da queixa para a ação. É abrir mão da fantasia de um resgate para construir, com as próprias mãos, um novo caminho. Um caminho onde a dor possa coexistir com o desejo, onde a fragilidade não impeça o movimento, e onde o sofrimento seja um capítulo — e não o enredo todo.

Abandonar o papel de vítima é um ato de maturidade.

É um retorno simbólico à liberdade.

É quando, enfim, a história deixa de ser uma repetição da ferida e se torna expressão da potência de ser.

Ninguém se torna refém de si mesmo de um dia para o outro.

O vitimismo, como tantos comportamentos humanos, é fruto de uma construção psíquica e relacional. Não se trata apenas de um traço de personalidade, mas de um padrão mental, emocional e comportamental aprendido e, muitas vezes, reforçado desde a infância. Aos poucos, torna-se um hábito. E como todo hábito, passa a moldar a forma como a pessoa enxerga o mundo, os outros e a si mesma.

Muitas vezes, essa forma de funcionar tem raízes profundas no ambiente familiar, especialmente quando a criança não teve suas necessidades emocionais reconhecidas ou validadas. Nesses contextos, ela pode ter desenvolvido a crença de que ser “vítima” é o único caminho possível para ser vista, acolhida ou levada em conta. Também pode ser a repetição inconsciente de um modelo parental: pais que se colocavam constantemente no papel de injustiçados, impotentes ou mártires acabam ensinando, pelo exemplo, essa lente de interpretação do mundo.

A psicanálise nos mostra que esses modos de funcionamento têm uma lógica interna: eles oferecem uma defesa psíquica frente ao sentimento de impotência. O vitimismo, nesse sentido, não é um “drama” superficial, mas uma tentativa, muitas vezes inconsciente, de dar sentido a dores internas. O problema é que esse modo de se relacionar com a vida se torna disfuncional quando paralisa a ação, contamina os vínculos e reduz a potência subjetiva do indivíduo.

Os pensamentos recorrentes de quem está nesse lugar mental incluem frases como: “Nada dá certo pra mim”, “As pessoas não me reconhecem”, “Sempre sou deixada de lado”, “Eu faço tudo pelos outros e ninguém faz nada por mim”. Trata-se de um padrão de cognição distorcida que opera com absolutismos – o “sempre”, o “nunca”, o “ninguém” – e que impede o sujeito de perceber nuances, responsabilidades compartilhadas e possibilidades de escolha.

Como mostra a Terapia Cognitivo-Comportamental, essas distorções cognitivas retroalimentam sentimentos de frustração, raiva, desesperança e ressentimento. E, ao reforçar constantemente o papel de vítima, a pessoa abre mão de uma postura mais ativa e autorresponsável diante da vida. Na prática, isso gera paralisia emocional, isolamento e sofrimento crônico.

Viver nesse lugar psíquico é como habitar uma narrativa trágica onde o sujeito se exclui da possibilidade de transformação. Mas é preciso dizer: há uma saída. Abandonar o papel de vítima é uma decisão – muitas vezes difícil, dolorosa e até assustadora – mas também profundamente libertadora.

Como disse Stephen Covey: “Eu não sou um produto das minhas circunstâncias. Eu sou um produto das minhas decisões.”

Assumir essa autoria da própria história é o primeiro passo para resgatar o protagonismo e reconstruir novas formas de ser no mundo.

Abandonar o vitimismo não é ignorar as dores do passado, mas é, sobretudo, decidir não se definir mais por elas. É honrar a liberdade de se tornar infinitas possibilidades de si mesmo. É abrir mão do aplauso da lamentação para viver a dignidade da transformação.

Referências

COVEY, Stephen R. Os 7 hábitos das pessoas altamente eficazes. Rio de Janeiro: Best Seller, 1989.

FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Vozes, 1991.

KAST, Verena. Abandonar o papel de vítima: viva sua própria vida. São Paulo: Loyola, 2004.

MATÉ, Gabor. O mito do normal: trauma, doença e cura em uma cultura tóxica. Rio de Janeiro: Objetiva, 2023.

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