“Representação do mito de Sísifo como metáfora da repetição inconsciente e do autoconhecimento.”

De volta para casa – Ninguém escapa do mito de Sísifo

Por mais que a gente tente fugir, o retorno para casa é inevitável.

Ana Matos

 

Todos nós, sem exceção, fazemos esse caminho de volta para casa. Volta simbólica, interna, silenciosa. Para a casa da infância, dos primeiros vínculos, dos afetos e, muitas vezes, dos traumas. Esse retorno acontece, na maioria das vezes, de forma inconsciente. Mesmo quando juramos que nunca seremos como nossos pais. Mesmo quando prometemos que faremos tudo diferente. Mesmo quando cortamos laços. Ainda assim… voltamos, repetimos, reencenamos, revivemos. E é por isso que ninguém escapa do mito de Sísifo.

Na mitologia grega, Sísifo foi condenado pelos deuses a empurrar uma enorme pedra montanha acima. Quando estava prestes a chegar ao topo, a pedra rolava montanha abaixo – e ele precisava recomeçar. Um castigo eterno, uma metáfora da repetição incessante. A psicanálise nomeia isso como compulsão à repetição: o retorno inconsciente aos mesmos padrões, dores, relações. Por mais que tentemos escapar, a pedra sempre volta. E nós, aparentemente, estamos sempre no mesmo lugar. A volta inconsciente ao ponto de origem, ou seja, de volta para casa.

Quantas vezes empurramos a pedra da mudança acreditando que finalmente seremos diferentes? Que agora vai ser diferente? Que desta vez não vamos repetir os erros da nossa mãe, a ausência do nosso pai, os silêncios da nossa infância? Mas a pedra volta. E, com ela, as mesmas reações, os mesmos mecanismos de defesa, os mesmos modos de amar, de se relacionar de sofrer, de lidar com a dor.

Mas por que repetimos? Por que parece tão difícil mudar?

A resposta pode estar também na biologia – mais especificamente, na biologia do comportamento. Bruce Lipton, biólogo celular e autor dos livros A Biologia da Crença e O Efeito Lua de Mel, traz uma perspectiva complementar a essa reflexão. Para ele, grande parte do que vivemos no dia a dia é resultado de uma programação subconsciente que se instala nos primeiros anos de vida — mais precisamente entre o nascimento e os 7 anos de idade.

Segundo Lipton, nesse período, o cérebro da criança opera majoritariamente nas ondas cerebrais theta, um estado neurológico semelhante à hipnose. Isso significa que estamos literalmente absorvendo tudo ao nosso redor – crenças, comportamentos, padrões de relacionamento, modos de reagir ao mundo – sem filtro, sem julgamento. Essas informações formam a base do nosso subconsciente e passam a governar mais de 90% das nossas ações na vida adulta.

É como se estivéssemos programados para repetir – até que nos tornemos conscientes dessa programação. Lipton afirma que, mesmo que racionalmente desejemos mudar, se nosso subconsciente estiver operando em outra direção, ele vence. Isso explica por que muitas mudanças falham: estamos tentando mover a pedra com a força da vontade consciente, mas a base inconsciente continua empurrando na direção contrária.

Voltamos ao mito de Sísifo: a pedra rola não porque somos fracos ou incapazes. Acontece porque estamos atravessados pela nossa história. Somos feitos de repetições. Nossa psique foi moldada por experiências precoces, por marcas invisíveis que nos acompanham e nos fazem agir de maneira automática. Como se algo dentro de nós nos empurrasse para reviver aquilo que, de alguma forma, não foi compreendido.

Mas há um ponto essencial nesse mito: Sísifo continua empurrando a pedra. Ele não desiste. E é aí que entra a virada filosófica que Albert Camus propõe em seu famoso ensaio O Mito de Sísifo. Para ele, a imagem de Sísifo não é apenas trágica. Há, também, uma possibilidade de liberdade. Quando Sísifo toma consciência da sua condição e escolhe continuar, ele encontra sentido no próprio ato de empurrar. Ele não é mais só vítima de um castigo: ele se apropria do seu destino.

E é isso que o autoconhecimento nos oferece. Quando começamos a olhar para a nossa pedra – aquilo que repetimos, carregamos, suportamos – com consciência, podemos transformar nossa relação com ela. Não se trata de nunca mais repetir, mas de entender o que está por trás da repetição. De fazer escolhas mais livres. De carregar com leveza aquilo que antes nos esmagava.

Nesse ponto tanto a psicanálise quanto Bruce Lipton concordam que há uma saída: justamente essa consciência. O primeiro passo é olhar para a pedra. Reconhecer que ela existe, que tem história, que carrega os significados da nossa infância e das crenças que absorvemos sobre quem somos, como devemos nos comportar, o que merecemos ou não.

A partir daí, começa um processo de ressignificação – que pode acontecer por meio da terapia, da meditação, de práticas de atenção plena, do autoconhecimento. Lipton sugere, inclusive, o uso de métodos como reprogramação mental, auto-hipnose ou práticas repetitivas com intenção consciente para reescrever esse subconsciente, alinhando-o ao que desejamos viver.

E aqui entra uma virada essencial, que resgata a proposta de Albert Camus em O Mito de Sísifo: o momento em que Sísifo toma consciência da sua condição e escolhe empurrar a pedra. Para Camus, é nesse instante que ele se torna livre. Não porque o castigo mudou, mas porque sua atitude mudou. Ele agora é sujeito do seu destino.

Esse é o verdadeiro ponto de virada. Quando olhamos para a nossa história, compreendemos nossas programações e escolhemos conscientemente como queremos viver daqui para frente. Deixamos de repetir por impulso e passamos a criar com intenção.

Afinal, todos voltamos para casa e podemos escolher como fazer esse caminho. Podemos voltar com consciência, com clareza, com vontade de transformar. A pedra pode continuar lá – mas quem empurra, já não é mais o mesmo.

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