Mulher entre a realização e a exaustão representando autoexigência, performance e autoconhecimento

Autoexigência: quando ser bom demais também tem um preço

Quando pensamos em autoconhecimento, geralmente começamos por aquilo que nos incomoda. Queremos entender por que repetimos determinadas relações, por que temos tanta dificuldade para colocar um limite, de onde vem uma insegurança ou por que continuamos fazendo alguma coisa mesmo depois de reconhecer que ela nos faz mal. O sofrimento costuma nos colocar diante de perguntas que provavelmente não faríamos se tudo estivesse funcionando bem e, por isso, poucas vezes dirigimos a mesma atenção para aquilo que sempre deu certo, para as características que nos trouxeram reconhecimento, abriram caminhos e ajudaram a construir boa parte da vida que temos hoje.

Por que alguém questionaria a própria responsabilidade se foi sendo responsável que conquistou confiança, reconhecimento e espaço? Que razão teria para desconfiar da independência que permitiu atravessar momentos difíceis sem depender de ninguém ou pensar sobre a própria exigência quando foi justamente ela que ajudou a construir uma carreira, alcançar resultados e chegar a lugares que dificilmente teriam sido alcançados sem tanto empenho?

Ser competente, responsável, disciplinado, independente, ter disposição para enfrentar dificuldades e continuar realizando são qualidades, e não precisamos transformar em problema aquilo que fazemos bem apenas porque decidimos conhecer melhor a nós mesmos. O que merece atenção é a história que existe por trás da maneira como cada pessoa aprendeu a ser responsável, competente, forte ou independente e, principalmente, o quanto ela ainda consegue escolher quando utilizar esses recursos e quando pode simplesmente não precisar deles.

Uma criança não sabe explicar por que algumas coisas parecem funcionar melhor do que outras dentro da própria família, porém aprende muito cedo a perceber. Percebe o que acontece quando corresponde ao que esperam dela, quando tira uma nota boa, quando ajuda, quando não dá trabalho, quando erra, quando precisa demais ou quando decepciona. Dentro das relações das quais depende, vai entendendo quais comportamentos aproximam, quais provocam conflito, onde encontra reconhecimento e de que maneira consegue preservar os vínculos que são fundamentais para ela. Muito do que aprendemos sobre como precisamos ser passa, assim, a fazer parte da nossa maneira de existir sem que saibamos exatamente quando começou.

A criança cresce e pode se tornar o adulto que todos consideram extremamente responsável. Aquele que amadureceu cedo porque as circunstâncias exigiram descobre que sabe resolver problemas como poucas pessoas, quem recebeu reconhecimento pelo desempenho aprende a se dedicar, estudar mais, entregar mais e não se contentar com qualquer resultado, enquanto aquele que se decepcionou algumas vezes quando precisou depender de alguém pode construir uma independência admirável e passar a vida ouvindo o quanto é forte por conseguir fazer tudo sozinho.

Durante muito tempo, tudo isso pode funcionar muito bem, tão bem que dificilmente alguém se pergunta quanto custa continuar ocupando esse lugar.

A pessoa competente recebe cada vez mais responsabilidade porque todos sabem que ela dará conta, aquela que resolve tudo passa a ser procurada sempre que alguma coisa precisa ser resolvida, quem raramente pede ajuda acaba cercado por pessoas que acreditam que ajuda nunca será necessária, enquanto aquele que suporta muito pode passar anos sendo reconhecido pela força sem que ninguém, inclusive ele próprio, se pergunte se gostaria de não precisar ser forte o tempo inteiro. Aos poucos, uma característica que fazia parte dos recursos daquela pessoa começa a ocupar um espaço muito maior na maneira como ela se reconhece e naquilo que acredita precisar continuar sendo.

Gostar de fazer as coisas bem feitas pode se transformar numa dificuldade enorme de lidar com o erro. A independência que durante tantos anos foi motivo de orgulho pode tornar difícil pedir ajuda, confiar ou dividir o peso da vida com alguém. A responsabilidade pode fazer com que uma pessoa assuma cada vez mais, mesmo quando já está exausta, e aquela capacidade admirável de continuar realizando pode tornar o descanso desconfortável, acompanhado de culpa e da sensação de que sempre existe alguma coisa que deveria estar sendo feita.

É nesse ponto que uma qualidade começa a cobrar um preço.

Em Recordar, repetir e elaborar, Freud escreve sobre aquilo que não retorna apenas como lembrança, mas reaparece na própria maneira de agir. Costumamos reconhecer uma repetição quando ela produz sofrimento evidente, como alguém que se envolve sucessivamente em relações muito parecidas, termina sempre diante dos mesmos conflitos ou volta a fazer aquilo que tantas vezes prometeu não fazer. Só que nem tudo o que repetimos parece um problema e algumas repetições funcionaram tão bem, receberam tanto reconhecimento e foram tão importantes para a nossa adaptação que dificilmente pensaríamos em questioná-las.

Se ser impecável trouxe reconhecimento durante boa parte da vida, deixar de sê-lo pode parecer perigoso. Se não precisar de ninguém protegeu de muitas decepções, depender exige entrar em contato com uma vulnerabilidade que durante anos aprendemos a evitar. Se assumir tudo impediu que as coisas saíssem do controle, dividir uma responsabilidade significa suportar a possibilidade de que o outro faça diferente e, se cada conquista trouxe durante algum tempo uma sensação de valor, parar de conquistar pode colocar a pessoa diante de perguntas sobre si mesma que permaneceram encobertas enquanto ela estava ocupada realizando.

Podemos passar muitos anos sem perceber que já não existe tanta liberdade nessas escolhas. Uma pessoa pode ter uma carreira admirável e viver com a sensação de que, a qualquer momento, alguém descobrirá que ela não é tão boa quanto parece, pode conquistar uma independência da qual se orgulha e não conseguir confiar em ninguém o suficiente para dividir o peso da própria vida, assim como pode chegar sucessivamente aos lugares que desejou e experimentar muito pouco cada chegada, porque a próxima conquista já começou a ser necessária.

Nada disso invalida o que foi construído. Uma carreira continua sendo uma carreira, uma conquista continua sendo uma conquista e competência continua sendo competência. O que precisamos compreender é a relação que estabelecemos com aquilo que fazemos e quanto de liberdade ainda existe na maneira como vivemos essas características.

Duas pessoas podem trabalhar muito e existir uma distância enorme entre o que acontece dentro de cada uma delas. Uma pode estar envolvida com um projeto que faz sentido, desejar construir alguma coisa e compreender que haverá períodos em que precisará se dedicar mais, enquanto outra pode trabalhar exatamente as mesmas horas e não conseguir parar sem sentir culpa, precisar de cada resultado para confirmar que continua sendo boa ou ter feito do trabalho um lugar tão importante para a própria identidade que já não sabe muito bem quem é quando não está produzindo. Para quem observa de fora, o comportamento pode parecer praticamente o mesmo; o que muda é aquilo que cada uma precisa encontrar através dele.

É também nesse ponto que autoconhecimento e performance precisam conversar, não para encontrarmos maneiras mais eficientes de produzir ainda mais, organizar melhor o tempo ou continuar exigindo de nós aquilo que já exigimos sob uma linguagem emocionalmente mais sofisticada, e sim para compreender de onde vem essa necessidade de dar conta, o que torna o erro tão difícil de suportar, o que sentimos quando precisamos pedir ajuda, por que descansar incomoda tanto ou por que uma conquista parece perder o valor tão rapidamente depois de alcançada.

Aquilo que aprendemos a fazer para conseguir alguma coisa pode continuar existindo mesmo quando aquela necessidade já não existe da mesma maneira. Quem aprendeu a ser forte porque não havia com quem contar pode continuar não contando com ninguém quando já existem pessoas disponíveis, quem precisou ser impecável para receber reconhecimento pode continuar tentando merecê-lo mesmo depois de construir uma vida na qual não precisa provar o próprio valor a cada resultado, e quem encontrou segurança controlando tudo pode seguir assumindo responsabilidades que já poderiam ser divididas, terminando exausto diante de uma vida que, curiosamente, todos acreditam que administra tão bem.

O processo de autoconhecimento também nos coloca diante dessas partes de nós que admiramos e nos ajuda a compreender como foram construídas, o que nos ofereceram, do que nos protegeram e qual lugar ainda ocupam na nossa vida. Não precisamos deixar de ser fortes, competentes, responsáveis, disciplinados ou independentes; podemos continuar reconhecendo essas características como parte importante de quem somos e, ao mesmo tempo, perceber quando estamos fazendo uso delas e quando já não sabemos existir sem elas.

Porque alguém pode continuar gostando de fazer bem feito sem transformar qualquer erro numa ameaça ao próprio valor, pode continuar independente e permitir-se precisar de alguém, pode continuar responsável sem assumir aquilo que pertence aos outros e pode continuar ambicioso sem fazer de cada nova conquista uma condição para sentir que vale alguma coisa. Quando começamos a compreender a história que existe por trás daquilo que fazemos tão bem, a qualidade não desaparece; o que pode desaparecer, aos poucos, é a obrigação de permanecer ocupando aquele lugar o tempo inteiro.

Por isso, algumas perguntas importantes sobre nós não estão apenas naquilo que não funciona. Vale olhar também para alguma característica pela qual você sempre foi reconhecido, aquela que abriu caminhos, ajudou a atravessar momentos difíceis, trouxe resultados e que provavelmente você também aprendeu a admirar em si mesmo, tentando compreender quando ela começou a ocupar um lugar tão importante, o que você encontrou sendo assim, o que conseguiu evitar, o que recebeu das pessoas e, principalmente, o que acontece dentro de você quando, por alguma razão, não consegue ocupar esse lugar.

Uma qualidade não deixa de ser uma qualidade quando compreendemos a história que existe por trás dela. Conhecer essa história pode nos devolver algo que, em algum momento, ficou pelo caminho: a possibilidade de continuar sendo muito bons naquilo que fazemos sem precisar pagar por isso com partes importantes de quem somos.

Ana Matos – Comportamento e Performance focada no ser humano

Casal refletindo sobre expectativas e conflitos em um relacionamento amoroso

Relacionamentos e expectativas: Quando amamos o outro a partir da nossa própria história

Você já observou que quando começamos um relacionamento, não chegamos sozinhos? Levamos conosco a nossa história, aquilo que aprendemos sobre amor, as experiências que tivemos, as relações que nos marcaram, aquilo que recebemos e, também, aquilo que sentimos que nos faltou. Ainda levamos uma ideia de como gostaríamos de ser amados, de como imaginamos que uma relação deveria funcionar, de como o outro deveria demonstrar que nos ama, e muitas vezes nem percebemos que estamos colocando sobre aquela pessoa expectativas que começaram a existir muito antes de conhecê-la. E essas expectativas, geralmente, estão baseadas no que aprendemos dentro do nosso núcleo familiar, do ambiente que crescemos.

Queremos que o outro nos compreenda, que perceba quando alguma coisa não está bem, que saiba quando precisamos de acolhimento, que reconheça aquilo que sentimos sem que precisemos explicar. Esperamos que ele saiba exatamente como nos amar, como se existisse uma maneira correta de fazer isso e como se essa maneira fosse igual para todas as pessoas. E quando ele não corresponde, quando não percebe, quando não oferece aquilo que imaginávamos receber, a frustração pode ser muito maior do que a situação em si parece justificar.

Isso acontece porque nem sempre estamos reagindo somente ao que está acontecendo no presente. Em alguns momentos, estamos reagindo também a tudo aquilo que aquela situação desperta dentro de nós que pode trazer uma carga a mais com base na nossa história e em como interpretamos certas situações.

Por exemplo, uma pessoa que cresceu sentindo que precisava fazer muito para ser reconhecida pode passar a esperar do parceiro uma demonstração constante de valorização. Quem aprendeu desde cedo a temer o abandono pode interpretar uma distância como sinal de desinteresse. Quem não se sentiu suficientemente acolhido pode esperar que o outro perceba cada necessidade, cada tristeza, cada silêncio, como se finalmente tivesse encontrado alguém capaz de oferecer aquilo que ficou faltando.

E é aí que o relacionamento começa a carregar um peso que não pertence somente a ele.

Porque ninguém chega ao outro sem história. E a nossa história interfere naquilo que esperamos, naquilo que toleramos, naquilo que cobramos e até naquilo que interpretamos como amor. Sem perceber, podemos transformar a pessoa que amamos em responsável por reparar dores que ela não causou, preencher vazios que existiam antes dela e responder perguntas que pertencem à nossa própria história.

Queremos que o outro nos dê aquilo que um dia não recebemos, queremos ser escolhidos para finalmente sentir que somos “escolhidos”, queremos ser compreendidos sem precisar falar porque, em algum lugar da nossa história, existiu uma necessidade de ser compreendido que não encontrou resposta, queremos ser cuidados de uma determinada maneira porque foi daquela maneira que sentimos que deveríamos ter sido cuidados.

E quando isso não acontece, podemos nos ressentir profundamente.

O outro passa a ser aquele que não entende, que não percebe, que não se importa, que não faz o suficiente. A relação vai se tornando um lugar de cobranças e decepções, enquanto cada um continua tentando receber do outro algo que, muitas vezes, nem consegue nomear.

É por isso que alguns conflitos parecem nunca terminar. A discussão muda, a situação muda, as palavras mudam, mas alguma coisa permanece exatamente no mesmo lugar. Não estamos mais discutindo apenas sobre aquela mensagem que não foi respondida, sobre aquela demonstração de afeto que não aconteceu, sobre aquele final de semana em que o outro preferiu fazer outra coisa. Estamos discutindo sobre aquilo que tudo isso representa para nós.

E quando não conseguimos perceber essa diferença, acabamos acreditando que o problema está sempre no outro.

É claro que existem comportamentos que precisam ser questionados. Existem necessidades legítimas dentro de uma relação, existem limites que precisam ser respeitados e existem atitudes que não podem ser justificadas em nome do amor. Compreender a própria história não significa retirar do outro a responsabilidade por aquilo que ele faz. Significa também assumir a nossa responsabilidade sobre aquilo que colocamos dentro da relação.

Porque uma coisa é dizer ao outro o que precisamos; outra é esperar que ele descubra. Uma coisa é desejar cuidado; outra é transformar o outro em responsável por curar todas as nossas feridas. Uma coisa é querer ser amado; outra é exigir que alguém prove o nosso valor o tempo inteiro.

E existe ainda uma questão que considero muito importante: precisamos permitir que o outro seja outro. E isso parece óbvio, mas não é.

Quando amamos alguém, criamos imagens, expectativas, desejos e uma ideia de futuro. Aos poucos, aquela pessoa deixa de ser apenas quem ela é e passa a ocupar também o lugar que imaginamos para ela na nossa vida. E quando a realidade não corresponde à imagem, sentimos como se alguma coisa tivesse sido tirada de nós.

Só que, muitas vezes, não estamos perdendo a pessoa. Estamos perdendo a fantasia que construímos sobre ela. É justamente essa questão que me veio à cabeça ao assistir a O Convite, filme dirigido por Olivia Wilde, que chegou aos cinemas brasileiros em julho de 2026. A história acompanha Joe e Angela, um casal que vive um momento de desgaste na relação e cuja rotina é atravessada pelo encontro com os vizinhos, um casal que desperta desejos, comparações e desconfortos que estavam, de alguma maneira, adormecidos. O filme coloca em cena, com humor e bastante desconforto, aquilo que pode acontecer quando olhamos para uma outra relação e começamos a imaginar que ali existe alguma coisa que está faltando na nossa.

E é nesse ponto que o filme conversa com a reflexão deste texto. Porque olhar para o outro e imaginar que ele possui aquilo que precisamos é muito diferente de compreender o que, de fato, está acontecendo dentro da nossa própria relação. Às vezes, aquilo que parece estar no outro está, na verdade, revelando um desejo nosso que ainda não conseguimos reconhecer ou comunicar.

Porque amar uma pessoa real exige aceitar que ela tem uma história que não é a nossa, que possui limites que não são os nossos, que sente de maneira diferente, que nem sempre vai compreender aquilo que sentimos da forma como gostaríamos e que também terá necessidades que nos serão difíceis de atender. O outro não veio ao mundo para completar a nossa história. Ele tem a própria e nós também. É no encontro entre essas duas histórias que uma relação acontece.

Por isso, amor e frustração caminham juntos. Podemos amar profundamente alguém e, ainda assim, sentir raiva. Podemos desejar estar perto e, em determinado momento, querer distância. Podemos admirar e nos decepcionar. Podemos cuidar e ferir. Podemos ser generosos em uma situação e egoístas em outra. Isso não torna o amor falso. Torna a relação humana.

O problema começa quando acreditamos que o amor deveria nos poupar dessas contradições. Quando esperamos que amar signifique nunca frustrar, nunca decepcionar, nunca sentir raiva, nunca desejar algo diferente. Quando transformamos qualquer conflito em sinal de fracasso da relação ou qualquer frustração em prova de que o outro não nos ama o suficiente.

Uma relação não se sustenta porque duas pessoas conseguem satisfazer todas as expectativas uma da outra. Ela se constrói quando duas pessoas conseguem reconhecer o que trazem para aquele encontro e começam a perceber onde termina a própria história e onde começa a história do outro.

Por isso, o autoconhecimento é importante para a construção dos relacionamentos. Porque quanto menos conhecemos as nossas próprias necessidades, mais facilmente esperamos que o outro descubra por nós. Quanto menos reconhecemos as nossas feridas, maior a possibilidade de colocarmos sobre o relacionamento a tarefa de repará-las. Quanto menos compreendemos os nossos medos, mais facilmente interpretamos os comportamentos do outro a partir deles.

Conhecer a própria história não impede a frustração. Impede que toda frustração se transforme imediatamente em acusação, em guerra, em desgastes, em fim.

Quando conseguimos reconhecer que determinada situação despertou em nós uma dor antiga, podemos conversar sobre ela de outra maneira. Quando percebemos que estamos esperando do outro algo que nunca disse, podemos começar a falar. Quando reconhecemos que uma cobrança nasce do medo de ser abandonada, podemos compreender que o medo existe sem transformá-lo automaticamente em prova de que o outro vai nos abandonar.

O relacionamento deixa de ser um lugar onde duas pessoas tentam preencher os vazios uma da outra e passa a ser um espaço onde duas histórias diferentes podem se encontrar.

E longe de significar que tudo será fácil. Significa apenas que deixamos de exigir que o amor seja uma espécie de reparação permanente daquilo que vivemos antes dele.

No fundo, uma das coisas mais difíceis de amar alguém é conseguir enxergá-lo para além daquilo que precisamos que ele seja. E uma das coisas mais difíceis de ser amado é permitir que o outro nos conheça para além daquilo que esperamos que ele faça por nós.

Quando começamos a fazer esse movimento, a relação deixa de ser apenas o lugar onde procuramos receber aquilo que nos faltou e pode se transformar em um lugar de encontro. Um encontro entre duas pessoas que trazem histórias diferentes, desejos diferentes, feridas diferentes e, ainda assim, escolhem construir alguma coisa juntas.

Mulher diante de um espelho quebrado simbolizando o processo de autoconhecimento e o encontro com a própria sombra

Conhecer a si mesmo também é descobrir aquilo que não queremos ver

Quando começamos um processo de autoconhecimento, costumamos imaginar que vamos encontrar respostas, compreender melhor nossas escolhas, descobrir nossas qualidades, reconhecer talentos que estavam escondidos e, de alguma forma, nos aproximar de uma versão melhor de nós mesmos. E isso acontece. Ao olhar para dentro, podemos descobrir capacidades que não reconhecíamos, perceber recursos que sempre estiveram conosco, compreender melhor aquilo que fazemos bem e enxergar possibilidades que estavam encobertas pela falta de confiança, pelo medo ou simplesmente pela falta de atenção a nós mesmos. Existe uma parte bonita nesse encontro, aquela em que começamos a reconhecer quem somos sem precisar esperar que o outro nos diga.

Só que o autoconhecimento não é, somente, sobre isso.

Na verdade, em muitos momentos ele começa a ficar mais interessante justamente quando deixamos de encontrar apenas aquilo que gostaríamos de encontrar. Porque, quando olhamos com honestidade para nós mesmos, também encontramos a nossa impaciência, a nossa inveja, a nossa dificuldade de ouvir, a necessidade de ter razão, o orgulho que nos impede de pedir desculpas, a tendência de julgar aquilo que fazemos parecido com o que condenamos no outro. Encontramos comportamentos dos quais não nos orgulhamos, percebemos que também podemos ser difíceis, que também magoamos, que também decepcionamos pessoas e que, em algumas histórias, não fomos apenas aqueles que sofreram.

Isso não é uma descoberta confortável. Ainda assim, é uma descoberta necessária.

No meu livro, quando escrevo sobre a sombra, parto justamente dessa ideia de que somos feitos de dualidades e que precisamos reconhecer tanto a nossa luz quanto aquilo que preferiríamos esconder. A sombra não deixa de existir porque não gostamos dela, e muitas vezes aquilo que não reconhecemos em nós acaba sendo projetado no outro, que passa a carregar características que também nos pertencem. Reconhecer essa parte menos bonita não significa aceitar qualquer comportamento como se tudo fosse justificável; significa assumir que somos humanos, que temos contradições, desejos, fragilidades e limites, e que o conhecimento de nós mesmos também passa por essa honestidade.

Existe uma diferença entre reconhecer uma característica e se definir por ela. Por exemplo: eu posso perceber que sou impaciente sem concluir que sou uma pessoa ruim. Posso reconhecer que em determinadas situações ajo de maneira egoísta sem transformar isso numa sentença sobre quem sou. Posso descobrir que tenho dificuldade para admitir que errei e, a partir dessa descoberta, começar a observar o que acontece comigo quando sou contrariada. Posso perceber que, em alguns momentos, quero controlar aquilo que não está sob o meu controle. Posso descobrir que magoei alguém mesmo quando a minha intenção não era essa.

Quando começo a enxergar essas coisas, deixo de precisar ser a pessoa certa o tempo inteiro. E, acredite, isso liberta.

Liberta porque não precisamos mais gastar tanta energia tentando sustentar diante de nós mesmos uma imagem de perfeição que nunca existiu. Podemos reconhecer uma qualidade sem transformá-la em vaidade e reconhecer uma dificuldade sem transformá-la em condenação. Podemos olhar para aquilo que fazemos de bom e, ao mesmo tempo, ter coragem para olhar para aquilo que ainda precisa ser trabalhado.

Foi por isso que, no meu livro, O caminho para o inevitável encontro consigo mesmo, escrevi que precisamos reconhecer nossos pontos fracos, potencializar nossos pontos fortes e buscar esse olhar para podermos nos desenvolver e evoluir. O processo de se conhecer não acontece uma única vez, como se em determinado momento recebêssemos um certificado dizendo que finalmente descobrimos quem somos. Ele exige observação, prática, erros e acertos, porque nós também estamos em movimento.

E quanto mais conseguimos reconhecer a nossa própria complexidade, mais difícil fica olhar para o outro de uma maneira tão simples.

Quando reconheço em mim a raiva, compreendo melhor que o outro também pode sentir raiva. Quando reconheço a minha insegurança, consigo olhar para determinadas reações alheias com menos pressa para classificá-las. Quando percebo que também posso ser injusta, que também interpreto situações a partir das minhas próprias dores e que também tenho pontos cegos, começo a compreender que o outro não é apenas aquilo que fez comigo.

Isso não significa justificar o comportamento de ninguém. Significa compreender que pessoas são muito mais complexas do que os recortes que fazemos delas.

Outro ponto do meu livro, quando falo sobre empatia, chego justamente a essa relação entre conhecer a si mesmo e conseguir conhecer o outro. Entrar em contato conosco, observar o que sentimos, reconhecer nossos julgamentos e perceber o que acontece dentro de nós é apresentado como um caminho para desenvolver essa capacidade de estar diante do outro com mais presença. O autoconhecimento, nesse sentido, não nos fecha em nós mesmos; ele pode nos aproximar do outro de uma maneira mais real.

Penso que uma das maiores contribuições do autoconhecimento esteja justamente na possibilidade de interromper algumas certezas que temos sobre nós e sobre as pessoas. Ou seja, eu não sou apenas aquilo que faço de bom – também não sou os meus erros. Não somos seres excludentes, somos inteiros. E ser inteiro signifique ter dentro de nós o bom e o ruim; o bem e o mal.

Sou essa pessoa que pode amar e sentir raiva, acolher e se irritar, acertar e errar, cuidar e, em determinados momentos, ferir. Sou capaz de generosidade e de egoísmo. Posso ser corajosa numa situação e extremamente insegura em outra. Posso compreender alguém profundamente em determinado momento e julgá-lo injustamente em outro. A consciência dessa dualidade não diminui quem somos. Ela nos torna mais responsáveis por aquilo que fazemos com aquilo que somos. E essa responsabilidade pode mudar a relação que temos conosco.

Afinal, quando conheço as minhas dificuldades, posso cuidar delas. Quando reconheço aquilo que me faz bem, posso fortalecê-lo. Quando percebo um padrão que se repete, posso começar a entender de onde ele vem e o que ele produz na minha vida. Quando descubro uma ferida, posso parar de exigir que as pessoas ao meu redor paguem por uma dor que não causaram. Quando reconheço que também posso errar, fica mais possível pedir desculpas, reparar, mudar.

A terapia pode participar desse processo justamente porque nem sempre conseguimos enxergar sozinhos aquilo que está diante de nós. O terapeuta como alguém que pode nos ajudar a enxergar sentimentos e comportamentos, articular aquilo que trazemos e encontrar sentidos que, muitas vezes, estavam presentes na nossa história sem que conseguíssemos percebê-los.

Conhecer a si mesmo, portanto, não deveria ser uma busca pela versão mais bonita de nós. Deveria ser uma aproximação cada vez maior daquilo que somos.

Com nossas qualidades, nossos talentos, nossas fragilidades, nossos desejos, nossos limites, nossas contradições e com aquilo que ainda precisamos aprender a fazer diferente. Investir no caminho do autoconhecimento não nos torna perfeitos, nos torna mais conscientes.

E uma pessoa mais consciente de si pode escolher melhor como agir, pode assumir mais responsabilidade pelo que coloca nas relações e pode compreender que cada encontro também é afetado pela pessoa que ela leva para dentro dele. Sabemos que as relações são construções feitas por pessoas e que, para evoluirmos nelas, precisamos observar continuamente nossos sentimentos, pensamentos e comportamentos.

No fim, o autoconhecimento não é apenas sobre viver melhor consigo mesmo. É também sobre aquilo que fazemos com a vida do outro quando entramos nela.

É sobre a maneira como amamos, como escutamos, como discordamos, como colocamos limites, como pedimos, como recusamos, como reparamos aquilo que fizemos de errado e como conseguimos permanecer em uma relação sem precisar transformar o outro em culpado por tudo aquilo que não conseguimos olhar em nós.

Começamos por nós e continuamos em “nós”.

E, quando esse encontro se aprofunda, muda a forma como olhamos para o mundo.

Passamos a compreender que ninguém é feito apenas de qualidades, que ninguém é apenas a sua pior escolha, que todos carregamos partes que conhecemos e outras que ainda estamos aprendendo a reconhecer. E isso não nos torna iguais, mas nos torna mais humanos diante uns dos outros.

Se conhecer é um exercício de honestidade. E ser honesto consigo mesmo não é descobrir que somos melhores do que imaginávamos. É descobrir que somos inteiros.

E, a partir daí, aprender a ser melhores para nós mesmos, para aqueles que amamos e, de alguma forma, para o mundo que ajudamos a construir todos os dias.