Mulher entre a realização e a exaustão representando autoexigência, performance e autoconhecimento

Autoexigência: quando ser bom demais também tem um preço

Quando pensamos em autoconhecimento, geralmente começamos por aquilo que nos incomoda. Queremos entender por que repetimos determinadas relações, por que temos tanta dificuldade para colocar um limite, de onde vem uma insegurança ou por que continuamos fazendo alguma coisa mesmo depois de reconhecer que ela nos faz mal. O sofrimento costuma nos colocar diante de perguntas que provavelmente não faríamos se tudo estivesse funcionando bem e, por isso, poucas vezes dirigimos a mesma atenção para aquilo que sempre deu certo, para as características que nos trouxeram reconhecimento, abriram caminhos e ajudaram a construir boa parte da vida que temos hoje.

Por que alguém questionaria a própria responsabilidade se foi sendo responsável que conquistou confiança, reconhecimento e espaço? Que razão teria para desconfiar da independência que permitiu atravessar momentos difíceis sem depender de ninguém ou pensar sobre a própria exigência quando foi justamente ela que ajudou a construir uma carreira, alcançar resultados e chegar a lugares que dificilmente teriam sido alcançados sem tanto empenho?

Ser competente, responsável, disciplinado, independente, ter disposição para enfrentar dificuldades e continuar realizando são qualidades, e não precisamos transformar em problema aquilo que fazemos bem apenas porque decidimos conhecer melhor a nós mesmos. O que merece atenção é a história que existe por trás da maneira como cada pessoa aprendeu a ser responsável, competente, forte ou independente e, principalmente, o quanto ela ainda consegue escolher quando utilizar esses recursos e quando pode simplesmente não precisar deles.

Uma criança não sabe explicar por que algumas coisas parecem funcionar melhor do que outras dentro da própria família, porém aprende muito cedo a perceber. Percebe o que acontece quando corresponde ao que esperam dela, quando tira uma nota boa, quando ajuda, quando não dá trabalho, quando erra, quando precisa demais ou quando decepciona. Dentro das relações das quais depende, vai entendendo quais comportamentos aproximam, quais provocam conflito, onde encontra reconhecimento e de que maneira consegue preservar os vínculos que são fundamentais para ela. Muito do que aprendemos sobre como precisamos ser passa, assim, a fazer parte da nossa maneira de existir sem que saibamos exatamente quando começou.

A criança cresce e pode se tornar o adulto que todos consideram extremamente responsável. Aquele que amadureceu cedo porque as circunstâncias exigiram descobre que sabe resolver problemas como poucas pessoas, quem recebeu reconhecimento pelo desempenho aprende a se dedicar, estudar mais, entregar mais e não se contentar com qualquer resultado, enquanto aquele que se decepcionou algumas vezes quando precisou depender de alguém pode construir uma independência admirável e passar a vida ouvindo o quanto é forte por conseguir fazer tudo sozinho.

Durante muito tempo, tudo isso pode funcionar muito bem, tão bem que dificilmente alguém se pergunta quanto custa continuar ocupando esse lugar.

A pessoa competente recebe cada vez mais responsabilidade porque todos sabem que ela dará conta, aquela que resolve tudo passa a ser procurada sempre que alguma coisa precisa ser resolvida, quem raramente pede ajuda acaba cercado por pessoas que acreditam que ajuda nunca será necessária, enquanto aquele que suporta muito pode passar anos sendo reconhecido pela força sem que ninguém, inclusive ele próprio, se pergunte se gostaria de não precisar ser forte o tempo inteiro. Aos poucos, uma característica que fazia parte dos recursos daquela pessoa começa a ocupar um espaço muito maior na maneira como ela se reconhece e naquilo que acredita precisar continuar sendo.

Gostar de fazer as coisas bem feitas pode se transformar numa dificuldade enorme de lidar com o erro. A independência que durante tantos anos foi motivo de orgulho pode tornar difícil pedir ajuda, confiar ou dividir o peso da vida com alguém. A responsabilidade pode fazer com que uma pessoa assuma cada vez mais, mesmo quando já está exausta, e aquela capacidade admirável de continuar realizando pode tornar o descanso desconfortável, acompanhado de culpa e da sensação de que sempre existe alguma coisa que deveria estar sendo feita.

É nesse ponto que uma qualidade começa a cobrar um preço.

Em Recordar, repetir e elaborar, Freud escreve sobre aquilo que não retorna apenas como lembrança, mas reaparece na própria maneira de agir. Costumamos reconhecer uma repetição quando ela produz sofrimento evidente, como alguém que se envolve sucessivamente em relações muito parecidas, termina sempre diante dos mesmos conflitos ou volta a fazer aquilo que tantas vezes prometeu não fazer. Só que nem tudo o que repetimos parece um problema e algumas repetições funcionaram tão bem, receberam tanto reconhecimento e foram tão importantes para a nossa adaptação que dificilmente pensaríamos em questioná-las.

Se ser impecável trouxe reconhecimento durante boa parte da vida, deixar de sê-lo pode parecer perigoso. Se não precisar de ninguém protegeu de muitas decepções, depender exige entrar em contato com uma vulnerabilidade que durante anos aprendemos a evitar. Se assumir tudo impediu que as coisas saíssem do controle, dividir uma responsabilidade significa suportar a possibilidade de que o outro faça diferente e, se cada conquista trouxe durante algum tempo uma sensação de valor, parar de conquistar pode colocar a pessoa diante de perguntas sobre si mesma que permaneceram encobertas enquanto ela estava ocupada realizando.

Podemos passar muitos anos sem perceber que já não existe tanta liberdade nessas escolhas. Uma pessoa pode ter uma carreira admirável e viver com a sensação de que, a qualquer momento, alguém descobrirá que ela não é tão boa quanto parece, pode conquistar uma independência da qual se orgulha e não conseguir confiar em ninguém o suficiente para dividir o peso da própria vida, assim como pode chegar sucessivamente aos lugares que desejou e experimentar muito pouco cada chegada, porque a próxima conquista já começou a ser necessária.

Nada disso invalida o que foi construído. Uma carreira continua sendo uma carreira, uma conquista continua sendo uma conquista e competência continua sendo competência. O que precisamos compreender é a relação que estabelecemos com aquilo que fazemos e quanto de liberdade ainda existe na maneira como vivemos essas características.

Duas pessoas podem trabalhar muito e existir uma distância enorme entre o que acontece dentro de cada uma delas. Uma pode estar envolvida com um projeto que faz sentido, desejar construir alguma coisa e compreender que haverá períodos em que precisará se dedicar mais, enquanto outra pode trabalhar exatamente as mesmas horas e não conseguir parar sem sentir culpa, precisar de cada resultado para confirmar que continua sendo boa ou ter feito do trabalho um lugar tão importante para a própria identidade que já não sabe muito bem quem é quando não está produzindo. Para quem observa de fora, o comportamento pode parecer praticamente o mesmo; o que muda é aquilo que cada uma precisa encontrar através dele.

É também nesse ponto que autoconhecimento e performance precisam conversar, não para encontrarmos maneiras mais eficientes de produzir ainda mais, organizar melhor o tempo ou continuar exigindo de nós aquilo que já exigimos sob uma linguagem emocionalmente mais sofisticada, e sim para compreender de onde vem essa necessidade de dar conta, o que torna o erro tão difícil de suportar, o que sentimos quando precisamos pedir ajuda, por que descansar incomoda tanto ou por que uma conquista parece perder o valor tão rapidamente depois de alcançada.

Aquilo que aprendemos a fazer para conseguir alguma coisa pode continuar existindo mesmo quando aquela necessidade já não existe da mesma maneira. Quem aprendeu a ser forte porque não havia com quem contar pode continuar não contando com ninguém quando já existem pessoas disponíveis, quem precisou ser impecável para receber reconhecimento pode continuar tentando merecê-lo mesmo depois de construir uma vida na qual não precisa provar o próprio valor a cada resultado, e quem encontrou segurança controlando tudo pode seguir assumindo responsabilidades que já poderiam ser divididas, terminando exausto diante de uma vida que, curiosamente, todos acreditam que administra tão bem.

O processo de autoconhecimento também nos coloca diante dessas partes de nós que admiramos e nos ajuda a compreender como foram construídas, o que nos ofereceram, do que nos protegeram e qual lugar ainda ocupam na nossa vida. Não precisamos deixar de ser fortes, competentes, responsáveis, disciplinados ou independentes; podemos continuar reconhecendo essas características como parte importante de quem somos e, ao mesmo tempo, perceber quando estamos fazendo uso delas e quando já não sabemos existir sem elas.

Porque alguém pode continuar gostando de fazer bem feito sem transformar qualquer erro numa ameaça ao próprio valor, pode continuar independente e permitir-se precisar de alguém, pode continuar responsável sem assumir aquilo que pertence aos outros e pode continuar ambicioso sem fazer de cada nova conquista uma condição para sentir que vale alguma coisa. Quando começamos a compreender a história que existe por trás daquilo que fazemos tão bem, a qualidade não desaparece; o que pode desaparecer, aos poucos, é a obrigação de permanecer ocupando aquele lugar o tempo inteiro.

Por isso, algumas perguntas importantes sobre nós não estão apenas naquilo que não funciona. Vale olhar também para alguma característica pela qual você sempre foi reconhecido, aquela que abriu caminhos, ajudou a atravessar momentos difíceis, trouxe resultados e que provavelmente você também aprendeu a admirar em si mesmo, tentando compreender quando ela começou a ocupar um lugar tão importante, o que você encontrou sendo assim, o que conseguiu evitar, o que recebeu das pessoas e, principalmente, o que acontece dentro de você quando, por alguma razão, não consegue ocupar esse lugar.

Uma qualidade não deixa de ser uma qualidade quando compreendemos a história que existe por trás dela. Conhecer essa história pode nos devolver algo que, em algum momento, ficou pelo caminho: a possibilidade de continuar sendo muito bons naquilo que fazemos sem precisar pagar por isso com partes importantes de quem somos.

Ana Matos – Comportamento e Performance focada no ser humano

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