Escolhas do passado: o que você sabe hoje não existia naquela época
Quantas vezes você já voltou as escolhas do passado e se perguntou por que não percebeu antes, por que permaneceu tanto tempo, por que fez aquela escolha ou deixou de fazer alguma coisa que, olhando de hoje, parece tão evidente que deveria ter sido feita? É uma experiência comum revisitar determinados momentos da vida com a consciência que temos agora e encontrar decisões que já não combinam conosco, pessoas que hoje não escolheríamos para permanecer ao nosso lado, situações que dificilmente aceitaríamos novamente e até comportamentos que causam certo estranhamento quando lembramos que fomos nós que agimos daquela maneira.
O tempo passou, alguma coisa em nós se modificou e, ainda assim, podemos olhar para quem fomos como se aquela pessoa tivesse à disposição tudo aquilo que sabemos agora. Como se já conhecesse os próprios limites, entendesse a origem dos seus medos, soubesse reconhecer aquilo que fazia mal, conseguisse nomear o que sentia e tivesse condições emocionais de sustentar uma escolha diferente. Só que muito do que sabemos sobre nós foi aprendido vivendo, errando, insistindo, perdendo, repetindo e, algumas vezes, permanecendo em lugares que hoje sabemos que não nos cabem mais.
Quando escrevo sobre escolhas no meu livro O caminho para o inevitável encontro consigo mesmo, uma questão que considero importante para pensar a própria história é que a vida que temos hoje também foi constituída pelas decisões que tomamos quando ainda não sabíamos muitas das coisas que sabemos agora. Algumas escolhas foram conscientes, outras atravessadas pelo medo, pela necessidade de pertencimento, pela dificuldade de reconhecer o próprio desejo e pelas referências que tínhamos sobre amor, trabalho, família e sobre nós mesmos. Reconhecer essas circunstâncias não elimina a nossa responsabilidade pelo que fizemos, apenas nos permite compreender que uma escolha não acontece separada da pessoa que éramos e do momento da vida em que ela precisou ser feita.
É muito fácil olhar para uma relação que terminou e pensar que deveríamos ter ido embora antes. Mais difícil é lembrar quem era aquela pessoa que ainda não conseguia ir embora, o que ela acreditava sobre o amor, o que temia perder, o quanto precisava ser escolhida, quais ausências carregava e que histórias anteriores participavam daquele vínculo sem que ela sequer percebesse. Quando retiramos tudo isso da análise, construímos uma versão muito simplificada do passado na qual sabíamos exatamente o que deveria ser feito e, por alguma razão inexplicável, escolhemos não fazer. Só que nem sempre sabíamos.
Podia existir incômodo, sofrimento e até alguma percepção de que as coisas não estavam bem, porém sentir que alguma coisa dói não significa necessariamente compreender o que está acontecendo. Às vezes levamos muito tempo para conseguir dar nome ao que estamos vivendo e ainda mais tempo para entender por que permanecemos ali. Entre sentir e compreender existe um percurso feito de experiência, de elaboração e também da possibilidade de suportar aquilo que uma nova compreensão exigirá de nós, porque perceber que uma relação nos faz mal é uma coisa; conseguir lidar com o medo de ficar sozinho, com a culpa de partir, com a sensação de fracasso ou com a perda daquilo que imaginávamos viver naquela relação é outra.
Por isso, quando alguém diz “eu deveria ter percebido antes”, penso que seria importante perguntar o que existia naquele “antes”. Talvez ainda não existisse o conhecimento dos próprios limites que existe hoje, a compreensão de que determinadas formas de amor estavam misturadas ao medo de ser abandonado ou a capacidade de dizer não sem acreditar que isso significaria perder o outro. Podemos olhar para trás e esquecer que a consciência que hoje nos permite reconhecer essas coisas também precisou ser construída, e parte dessa construção aconteceu dentro das próprias experiências que agora gostaríamos de ter evitado.
O mesmo acontece quando olhamos para os anos dedicados a um trabalho, a um casamento, a uma amizade, a uma formação ou a um projeto que não aconteceu como imaginávamos e concluímos que perdemos tempo demais. A sensação de perda pode ser legítima e não precisamos romantizar aquilo que doeu para encontrar uma lição em tudo. Existem anos que gostaríamos de ter vivido de outra maneira, consequências que continuam conosco e escolhas que, se pudéssemos voltar, provavelmente não repetiríamos. Ainda assim, chamar todo esse tempo de perdido pode apagar uma parte importante da história: a pessoa que hoje consegue reconhecer que permaneceu demais foi sendo construída também durante os anos em que permaneceu.
Houve experiência, frustração, repetição, cansaço, confronto com os próprios limites e, em algum momento, alguma compreensão se tornou possível. Aquilo que hoje permite dizer “eu não aceitaria mais isso” não apareceu pronto dentro de nós; foi sendo construído também a partir daquilo que um dia aceitamos. O limite que hoje conseguimos colocar pode ter nascido depois de muitos limites que não conseguimos colocar, assim como a capacidade de reconhecer uma relação que nos diminui pode ter sido formada depois de passarmos tempo demais tentando fazer aquela relação funcionar.
Esse olhar aparece também nas coisas que não dissemos. Depois de uma conversa difícil, de uma separação ou mesmo da perda de alguém, podemos passar muito tempo construindo respostas melhores para situações que já terminaram, imaginando a frase que deveríamos ter dito, o limite que deveríamos ter colocado ou aquilo que finalmente teríamos coragem de falar se pudéssemos voltar àquele momento. Hoje, provavelmente, algumas dessas palavras seriam ditas. Naquela época, no entanto, a voz que temos agora ainda estava sendo construída.
Há pessoas que levam muitos anos para conseguir sustentar aquilo que pensam diante de alguém que amam porque aprenderam muito cedo que falar poderia significar desagradar, decepcionar, provocar conflito ou perder. Não basta ter algo a dizer para conseguir dizer; precisamos também suportar as consequências que imaginamos que virão depois da nossa fala. Quem passou boa parte da vida acreditando que precisava agradar para pertencer dificilmente acordará um dia sabendo estabelecer limites apenas porque racionalmente entendeu que deveria fazer isso. A compreensão intelectual pode chegar muito antes da possibilidade emocional de agir de acordo com ela.
Quando julgamos quem fomos utilizando somente os recursos de quem somos hoje, acabamos condenando uma versão de nós mesmos por ainda não ter chegado a um lugar que só seria alcançado depois de atravessar parte daquela história. E isso não significa retirar a responsabilidade pelos próprios erros ou transformar toda escolha numa consequência inevitável do passado. Crescer também envolve admitir que fizemos escolhas ruins, que ferimos pessoas, que insistimos onde já havia sinais para parar, que fomos injustos, que nos omitimos e que, em determinadas situações, não conseguimos fazer aquilo que precisava ser feito.
O autoconhecimento não deveria servir para construir justificativas cada vez mais sofisticadas para os nossos comportamentos. Compreender de onde veio uma escolha não significa dizer que ela foi correta, assim como reconhecer uma ferida não nos autoriza a ferir alguém por causa dela. O conhecimento sobre nós amplia a responsabilidade porque, depois que conseguimos enxergar um comportamento, um padrão ou uma maneira de nos relacionarmos, já não estamos exatamente no mesmo lugar de antes. Podemos continuar repetindo, é claro, porém alguma coisa passa a ser conhecida e precisamos decidir o que faremos com aquilo que agora sabemos.
A culpa pelo passado pode se tornar um problema quando deixa de participar dessa elaboração e passa a funcionar como uma maneira de permanecer preso àquilo que já aconteceu. A pessoa compreendeu, reconheceu o próprio erro, muitas vezes já não faria a mesma escolha e, ainda assim, retorna continuamente àquela história tentando imaginar como a vida teria sido se tivesse agido de outra maneira. Cria conversas que nunca aconteceram, ensaia decisões que não podem mais ser tomadas e tenta oferecer à pessoa que foi os recursos que só adquiriu depois. Enquanto procura modificar mentalmente aquilo que não pode mais ser modificado, pode deixar de perceber que a única parte daquela história sobre a qual ainda existe alguma possibilidade de escolha está acontecendo no presente.
Podemos revisitar o passado, compreender nossos movimentos, reconhecer aquilo que fizemos, pedir perdão quando ainda for possível, reparar o que puder ser reparado e assumir as consequências que nos pertencem. Podemos também reconhecer que algumas decisões foram tomadas por uma pessoa que tinha menos recursos, menos consciência e uma compreensão muito diferente da própria vida. Em algum momento, continuar conhecendo a nossa história exige aceitar que ela aconteceu daquela maneira, inclusive quando gostaríamos muito que tivesse sido diferente.
Isso também muda a forma como pensamos o arrependimento. Arrepender-se pode revelar que houve uma mudança importante entre quem tomou determinada decisão e quem agora consegue avaliá-la. Se hoje sentimos vergonha de um comportamento antigo, reconhecemos que permanecemos demais numa situação ou sabemos que agiríamos de outra forma diante do mesmo acontecimento, existe nessa percepção uma informação sobre o caminho que percorremos. A pessoa que olha para trás não é mais exatamente aquela que esteve lá, e esperar que a versão anterior tivesse a mesma consciência da atual é retirar da própria transformação o tempo que ela precisou para acontecer.
Podemos fazer esse movimento sem idealizar quem fomos e sem transformar o passado numa coleção de erros que deveriam ter sido evitados. Somos constituídos também pelas versões que já não queremos ser, pelas escolhas que revimos, pelas certezas que abandonamos e por aquilo que só conseguimos compreender depois. A consciência não chega inteira, não se instala de uma única vez e não permanece igual ao longo da vida. Aquilo que hoje parece óbvio pode ter exigido anos de experiência para se tornar visível, assim como é bastante provável que existam coisas que fazemos agora e que compreenderemos de outra maneira daqui a alguns anos.
Essa possibilidade deveria nos tornar um pouco mais cuidadosos com a certeza de que já sabemos tudo sobre quem somos. Estamos sempre olhando para a vida a partir do ponto em que conseguimos chegar, com os recursos que conseguimos construir até aqui, e o autoconhecimento participa desse movimento quando nos permite revisar o que vivemos sem precisar transformar cada descoberta numa acusação contra quem fomos. Podemos reconhecer que alguma coisa precisava ter sido diferente e, ao mesmo tempo, compreender por que não conseguimos fazê-la diferente naquele momento.
Olhar para trás com honestidade importa porque a nossa história continua participando daquilo que fazemos no presente, porém permanecer vivendo dentro dela não modifica o que aconteceu. Se hoje conseguimos enxergar o que antes não enxergávamos, sustentar um limite que antes parecia impossível, reconhecer uma necessidade que passamos anos ignorando ou compreender que determinada forma de viver já não faz sentido, então alguma coisa foi construída durante o caminho.
O que você sabe hoje não existia daquela maneira naquela época, e isso não apaga os erros, as perdas ou as consequências das escolhas que foram feitas. Apenas coloca cada versão de nós no tempo em que ela existiu e nos devolve a responsabilidade para o único lugar onde ainda podemos fazer alguma coisa com aquilo que aprendemos.
A pergunta que continua pertencendo à nossa vida não é o que teríamos feito se soubéssemos naquela época tudo o que sabemos hoje. O passado já respondeu com os recursos que tinha. O que ainda está sendo escrito é aquilo que faremos agora com a consciência que temos.












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