Somente o amor não basta: o desafio de não se perder de si mesmo em um relacionamento
Quando falamos sobre relacionamentos, é comum que a nossa atenção se volte para o outro. Queremos entender o que ele sente, o que pensa, se ainda existe amor, se a relação tem futuro, se vale a pena continuar investindo naquela história. Passamos anos tentando responder a essas perguntas e, muitas vezes, deixamos de olhar para uma questão igualmente importante: o que está acontecendo conosco dentro dessa relação? Quem estamos nos tornando ao longo do caminho? Quais partes de nós continuam presentes e quais foram sendo deixadas para trás para que esse vínculo permanecesse de pé?
Existe uma crença bastante difundida de que o amor é capaz de superar tudo. Crescemos ouvindo que, quando o sentimento é verdadeiro, os obstáculos serão vencidos, as diferenças serão compreendidas e os problemas encontrarão solução. A experiência, no entanto, costuma ser mais complexa. Se apenas o amor fosse suficiente, não existiriam pessoas profundamente apaixonadas sentindo-se sozinhas dentro de uma relação, nem casais que compartilham a mesma casa, a mesma rotina e os mesmos planos, mas já não conseguem compartilhar aquilo que sentem.
Alain de Botton, filósofo e escritor, escreve que uma das grandes ilusões do amor romântico é acreditar que o sentimento, por si só, possui todas as habilidades necessárias para sustentar uma relação. Amar alguém e construir uma relação são experiências diferentes. O amor pode aproximar duas pessoas, despertar encantamento, desejo e vontade de permanecer junto. Construir uma relação exige algo além. Exige diálogo, maturidade emocional, disposição para lidar com conflitos, capacidade de escuta e, principalmente, espaço para que cada um continue sendo quem é.
É justamente nesse ponto que muitas histórias começam a se perder.
Nem sempre a dificuldade está na ausência de amor. Em muitos casos, ela aparece quando uma das pessoas já não encontra espaço para existir com liberdade dentro da relação. A conversa que nunca acontece, o desconforto que é constantemente engolido, a opinião que deixa de ser expressa para evitar discussões, a necessidade que é silenciada para não parecer exagerada. Nada disso costuma acontecer de uma única vez. São movimentos sutis, quase imperceptíveis, que vão se acumulando ao longo do tempo.
Quando percebemos, já não estamos apenas tentando preservar a relação. Estamos tentando preservar a relação enquanto nos afastamos de nós mesmos.
Esse afastamento raramente chama atenção no início porque ele não acontece de forma dramática. Não acordamos um dia e percebemos que deixamos de ser quem somos. O processo costuma ser muito mais silencioso. Ele aparece quando passamos a censurar pensamentos antes de expressá-los, quando deixamos de compartilhar aquilo que sentimos porque acreditamos que não haverá escuta, quando evitamos determinados assuntos para não gerar desconforto ou quando começamos a ocupar cada vez menos espaço dentro da própria vida.
Ao longo do tempo, vamos nos acostumando a essa redução. Aprendemos a nos adaptar, a flexibilizar, a compreender, a relevar. Todas essas capacidades são importantes em qualquer convivência humana. A dificuldade surge quando a adaptação deixa de ser um movimento saudável entre duas pessoas e passa a acontecer sempre na mesma direção. Quando apenas um lado faz concessões. Quando apenas um lado silencia necessidades. Quando apenas um lado se esforça para manter o equilíbrio da relação.
É nesse momento que começa a surgir um desconforto difícil de nomear. Não se trata necessariamente da falta de amor. Também não se trata de uma ausência evidente de carinho. Trata-se da sensação de não conseguir mais se reconhecer completamente dentro da própria história. Algo parece fora do lugar. A relação continua existindo, mas a espontaneidade desaparece. O vínculo permanece, mas a liberdade diminui. A presença física continua ali, enquanto emocionalmente uma parte importante da pessoa já não encontra espaço para existir.
Poucas dores são tão difíceis de perceber quanto essa. Afinal, estamos acostumados a identificar quando perdemos alguém. Nem sempre conseguimos perceber quando estamos perdendo a nós mesmos. E essa é uma perda que acontece sem despedidas, sem encerramentos formais e sem datas marcadas no calendário. Ela acontece nos pequenos silêncios, nas renúncias acumuladas e nas versões de nós que deixamos de habitar para continuar correspondendo às expectativas de alguém.
No meu livro, O Caminho para o Inevitável Encontro Consigo Mesmo, escrevi que um dos grandes desafios das relações não é a possibilidade de perder o outro, mas a de não se perder de si mesmo. Essa reflexão continua fazendo sentido porque existe uma diferença importante entre compartilhar a vida com alguém e abandonar a própria identidade para manter esse alguém por perto. Abrir mão da própria vida não significa amar. Amar não deveria exigir o desaparecimento de quem somos.
Esther Perel, psicoterapeuta belga e uma das principais referências contemporâneas quando o assunto são relacionamentos, costuma dizer que intimidade não é fusão. Relações saudáveis dependem da capacidade de criar proximidade sem eliminar a individualidade. Existe um encontro entre duas pessoas, mas esse encontro não deveria apagar a existência de nenhuma delas. Continuamos sendo sujeitos com desejos, opiniões, limites, necessidades e projetos próprios. Quando a relação passa a exigir silêncio para manter a harmonia, algo importante deixa de circular dentro dela.
Foi pensando nisso que escrevi:
Qual é a voz do teu medo?
Quando o medo cala a tua voz?
Onde não puderes ser não te demores.
Onde não puderes ter voz não te demores.
Onde tua alma não é vista não te demores.
Onde puderes voar faça ninho.
Durante muito tempo enxerguei esses versos como uma reflexão sobre permanência e despedida. Hoje vejo que eles falam, antes de tudo, sobre presença. Sobre a possibilidade de existir inteiro em um lugar. Sobre a liberdade de expressar o que sentimos sem viver em constante estado de vigilância. Sobre não precisar escolher cuidadosamente cada palavra por medo da reação do outro. Sobre não transformar a própria autenticidade em ameaça.
Existe um tipo de sofrimento que nasce quando deixamos de ser vistos. Não apenas vistos fisicamente, mas reconhecidos naquilo que somos, pensamos, sentimos e desejamos. O ser humano precisa de amor, mas também precisa de reconhecimento. Precisa sentir que sua presença importa, que sua voz encontra espaço, que sua subjetividade não está sendo tratada como um detalhe secundário da relação.
Relacionamentos são construídos por duas pessoas que trazem suas histórias, suas fragilidades, suas expectativas e seus limites. Nenhuma delas tem a responsabilidade de completar a outra, curar suas feridas ou preencher todos os seus vazios. O encontro acontece quando duas pessoas conseguem compartilhar a vida sem exigir que uma delas desapareça para que a outra permaneça confortável.
Ao longo da vida aprendemos a ter medo da rejeição, do abandono e das despedidas. Poucos aprendem a observar o que acontece quando a tentativa de evitar essas perdas começa a produzir uma perda ainda maior: a da própria identidade. Nenhuma relação se fortalece quando uma pessoa precisa diminuir a si mesma para que a outra permaneça confortável. Nenhum amor se torna mais verdadeiro porque exige silêncio, ausência ou apagamento.
Por isso, antes de perguntar se existe amor, vale a pena olhar para a qualidade do espaço que está sendo construído entre duas pessoas. Existe liberdade para pensar diferente? Existe abertura para falar sobre o que machuca? Existe interesse genuíno pela experiência do outro? Existe respeito quando surgem divergências? Existe acolhimento para aquilo que cada um é?
Porque o amor pode ser o início de uma história. O que determina a sua continuidade é a capacidade de construir um lugar onde duas pessoas possam existir sem precisar abandonar a si mesmas. Um lugar onde a voz não precise ser sufocada, onde a alma não precise se esconder e onde a presença de cada um seja reconhecida como parte essencial da relação.
Onde puderes ser, faça morada. Onde puderes crescer, faça caminho. Onde puderes voar, faça ninho.













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