Mulher refletindo sobre o passado e as próprias escolhas durante o processo de autoconhecimento

Escolhas do passado: o que você sabe hoje não existia naquela época

Quantas vezes você já voltou as escolhas do passado e se perguntou por que não percebeu antes, por que permaneceu tanto tempo, por que fez aquela escolha ou deixou de fazer alguma coisa que, olhando de hoje, parece tão evidente que deveria ter sido feita? É uma experiência comum revisitar determinados momentos da vida com a consciência que temos agora e encontrar decisões que já não combinam conosco, pessoas que hoje não escolheríamos para permanecer ao nosso lado, situações que dificilmente aceitaríamos novamente e até comportamentos que causam certo estranhamento quando lembramos que fomos nós que agimos daquela maneira.

O tempo passou, alguma coisa em nós se modificou e, ainda assim, podemos olhar para quem fomos como se aquela pessoa tivesse à disposição tudo aquilo que sabemos agora. Como se já conhecesse os próprios limites, entendesse a origem dos seus medos, soubesse reconhecer aquilo que fazia mal, conseguisse nomear o que sentia e tivesse condições emocionais de sustentar uma escolha diferente. Só que muito do que sabemos sobre nós foi aprendido vivendo, errando, insistindo, perdendo, repetindo e, algumas vezes, permanecendo em lugares que hoje sabemos que não nos cabem mais.

Quando escrevo sobre escolhas no meu livro O caminho para o inevitável encontro consigo mesmo, uma questão que considero importante para pensar a própria história é que a vida que temos hoje também foi constituída pelas decisões que tomamos quando ainda não sabíamos muitas das coisas que sabemos agora. Algumas escolhas foram conscientes, outras atravessadas pelo medo, pela necessidade de pertencimento, pela dificuldade de reconhecer o próprio desejo e pelas referências que tínhamos sobre amor, trabalho, família e sobre nós mesmos. Reconhecer essas circunstâncias não elimina a nossa responsabilidade pelo que fizemos, apenas nos permite compreender que uma escolha não acontece separada da pessoa que éramos e do momento da vida em que ela precisou ser feita.

É muito fácil olhar para uma relação que terminou e pensar que deveríamos ter ido embora antes. Mais difícil é lembrar quem era aquela pessoa que ainda não conseguia ir embora, o que ela acreditava sobre o amor, o que temia perder, o quanto precisava ser escolhida, quais ausências carregava e que histórias anteriores participavam daquele vínculo sem que ela sequer percebesse. Quando retiramos tudo isso da análise, construímos uma versão muito simplificada do passado na qual sabíamos exatamente o que deveria ser feito e, por alguma razão inexplicável, escolhemos não fazer. Só que nem sempre sabíamos.

Podia existir incômodo, sofrimento e até alguma percepção de que as coisas não estavam bem, porém sentir que alguma coisa dói não significa necessariamente compreender o que está acontecendo. Às vezes levamos muito tempo para conseguir dar nome ao que estamos vivendo e ainda mais tempo para entender por que permanecemos ali. Entre sentir e compreender existe um percurso feito de experiência, de elaboração e também da possibilidade de suportar aquilo que uma nova compreensão exigirá de nós, porque perceber que uma relação nos faz mal é uma coisa; conseguir lidar com o medo de ficar sozinho, com a culpa de partir, com a sensação de fracasso ou com a perda daquilo que imaginávamos viver naquela relação é outra.

Por isso, quando alguém diz “eu deveria ter percebido antes”, penso que seria importante perguntar o que existia naquele “antes”. Talvez ainda não existisse o conhecimento dos próprios limites que existe hoje, a compreensão de que determinadas formas de amor estavam misturadas ao medo de ser abandonado ou a capacidade de dizer não sem acreditar que isso significaria perder o outro. Podemos olhar para trás e esquecer que a consciência que hoje nos permite reconhecer essas coisas também precisou ser construída, e parte dessa construção aconteceu dentro das próprias experiências que agora gostaríamos de ter evitado.

O mesmo acontece quando olhamos para os anos dedicados a um trabalho, a um casamento, a uma amizade, a uma formação ou a um projeto que não aconteceu como imaginávamos e concluímos que perdemos tempo demais. A sensação de perda pode ser legítima e não precisamos romantizar aquilo que doeu para encontrar uma lição em tudo. Existem anos que gostaríamos de ter vivido de outra maneira, consequências que continuam conosco e escolhas que, se pudéssemos voltar, provavelmente não repetiríamos. Ainda assim, chamar todo esse tempo de perdido pode apagar uma parte importante da história: a pessoa que hoje consegue reconhecer que permaneceu demais foi sendo construída também durante os anos em que permaneceu.

Houve experiência, frustração, repetição, cansaço, confronto com os próprios limites e, em algum momento, alguma compreensão se tornou possível. Aquilo que hoje permite dizer “eu não aceitaria mais isso” não apareceu pronto dentro de nós; foi sendo construído também a partir daquilo que um dia aceitamos. O limite que hoje conseguimos colocar pode ter nascido depois de muitos limites que não conseguimos colocar, assim como a capacidade de reconhecer uma relação que nos diminui pode ter sido formada depois de passarmos tempo demais tentando fazer aquela relação funcionar.

Esse olhar aparece também nas coisas que não dissemos. Depois de uma conversa difícil, de uma separação ou mesmo da perda de alguém, podemos passar muito tempo construindo respostas melhores para situações que já terminaram, imaginando a frase que deveríamos ter dito, o limite que deveríamos ter colocado ou aquilo que finalmente teríamos coragem de falar se pudéssemos voltar àquele momento. Hoje, provavelmente, algumas dessas palavras seriam ditas. Naquela época, no entanto, a voz que temos agora ainda estava sendo construída.

Há pessoas que levam muitos anos para conseguir sustentar aquilo que pensam diante de alguém que amam porque aprenderam muito cedo que falar poderia significar desagradar, decepcionar, provocar conflito ou perder. Não basta ter algo a dizer para conseguir dizer; precisamos também suportar as consequências que imaginamos que virão depois da nossa fala. Quem passou boa parte da vida acreditando que precisava agradar para pertencer dificilmente acordará um dia sabendo estabelecer limites apenas porque racionalmente entendeu que deveria fazer isso. A compreensão intelectual pode chegar muito antes da possibilidade emocional de agir de acordo com ela.

Quando julgamos quem fomos utilizando somente os recursos de quem somos hoje, acabamos condenando uma versão de nós mesmos por ainda não ter chegado a um lugar que só seria alcançado depois de atravessar parte daquela história. E isso não significa retirar a responsabilidade pelos próprios erros ou transformar toda escolha numa consequência inevitável do passado. Crescer também envolve admitir que fizemos escolhas ruins, que ferimos pessoas, que insistimos onde já havia sinais para parar, que fomos injustos, que nos omitimos e que, em determinadas situações, não conseguimos fazer aquilo que precisava ser feito.

O autoconhecimento não deveria servir para construir justificativas cada vez mais sofisticadas para os nossos comportamentos. Compreender de onde veio uma escolha não significa dizer que ela foi correta, assim como reconhecer uma ferida não nos autoriza a ferir alguém por causa dela. O conhecimento sobre nós amplia a responsabilidade porque, depois que conseguimos enxergar um comportamento, um padrão ou uma maneira de nos relacionarmos, já não estamos exatamente no mesmo lugar de antes. Podemos continuar repetindo, é claro, porém alguma coisa passa a ser conhecida e precisamos decidir o que faremos com aquilo que agora sabemos.

A culpa pelo passado pode se tornar um problema quando deixa de participar dessa elaboração e passa a funcionar como uma maneira de permanecer preso àquilo que já aconteceu. A pessoa compreendeu, reconheceu o próprio erro, muitas vezes já não faria a mesma escolha e, ainda assim, retorna continuamente àquela história tentando imaginar como a vida teria sido se tivesse agido de outra maneira. Cria conversas que nunca aconteceram, ensaia decisões que não podem mais ser tomadas e tenta oferecer à pessoa que foi os recursos que só adquiriu depois. Enquanto procura modificar mentalmente aquilo que não pode mais ser modificado, pode deixar de perceber que a única parte daquela história sobre a qual ainda existe alguma possibilidade de escolha está acontecendo no presente.

Podemos revisitar o passado, compreender nossos movimentos, reconhecer aquilo que fizemos, pedir perdão quando ainda for possível, reparar o que puder ser reparado e assumir as consequências que nos pertencem. Podemos também reconhecer que algumas decisões foram tomadas por uma pessoa que tinha menos recursos, menos consciência e uma compreensão muito diferente da própria vida. Em algum momento, continuar conhecendo a nossa história exige aceitar que ela aconteceu daquela maneira, inclusive quando gostaríamos muito que tivesse sido diferente.

Isso também muda a forma como pensamos o arrependimento. Arrepender-se pode revelar que houve uma mudança importante entre quem tomou determinada decisão e quem agora consegue avaliá-la. Se hoje sentimos vergonha de um comportamento antigo, reconhecemos que permanecemos demais numa situação ou sabemos que agiríamos de outra forma diante do mesmo acontecimento, existe nessa percepção uma informação sobre o caminho que percorremos. A pessoa que olha para trás não é mais exatamente aquela que esteve lá, e esperar que a versão anterior tivesse a mesma consciência da atual é retirar da própria transformação o tempo que ela precisou para acontecer.

Podemos fazer esse movimento sem idealizar quem fomos e sem transformar o passado numa coleção de erros que deveriam ter sido evitados. Somos constituídos também pelas versões que já não queremos ser, pelas escolhas que revimos, pelas certezas que abandonamos e por aquilo que só conseguimos compreender depois. A consciência não chega inteira, não se instala de uma única vez e não permanece igual ao longo da vida. Aquilo que hoje parece óbvio pode ter exigido anos de experiência para se tornar visível, assim como é bastante provável que existam coisas que fazemos agora e que compreenderemos de outra maneira daqui a alguns anos.

Essa possibilidade deveria nos tornar um pouco mais cuidadosos com a certeza de que já sabemos tudo sobre quem somos. Estamos sempre olhando para a vida a partir do ponto em que conseguimos chegar, com os recursos que conseguimos construir até aqui, e o autoconhecimento participa desse movimento quando nos permite revisar o que vivemos sem precisar transformar cada descoberta numa acusação contra quem fomos. Podemos reconhecer que alguma coisa precisava ter sido diferente e, ao mesmo tempo, compreender por que não conseguimos fazê-la diferente naquele momento.

Olhar para trás com honestidade importa porque a nossa história continua participando daquilo que fazemos no presente, porém permanecer vivendo dentro dela não modifica o que aconteceu. Se hoje conseguimos enxergar o que antes não enxergávamos, sustentar um limite que antes parecia impossível, reconhecer uma necessidade que passamos anos ignorando ou compreender que determinada forma de viver já não faz sentido, então alguma coisa foi construída durante o caminho.

O que você sabe hoje não existia daquela maneira naquela época, e isso não apaga os erros, as perdas ou as consequências das escolhas que foram feitas. Apenas coloca cada versão de nós no tempo em que ela existiu e nos devolve a responsabilidade para o único lugar onde ainda podemos fazer alguma coisa com aquilo que aprendemos.

A pergunta que continua pertencendo à nossa vida não é o que teríamos feito se soubéssemos naquela época tudo o que sabemos hoje. O passado já respondeu com os recursos que tinha. O que ainda está sendo escrito é aquilo que faremos agora com a consciência que temos.

Mulher entre a realização e a exaustão representando autoexigência, performance e autoconhecimento

Autoexigência: quando ser bom demais também tem um preço

Quando pensamos em autoconhecimento, geralmente começamos por aquilo que nos incomoda. Queremos entender por que repetimos determinadas relações, por que temos tanta dificuldade para colocar um limite, de onde vem uma insegurança ou por que continuamos fazendo alguma coisa mesmo depois de reconhecer que ela nos faz mal. O sofrimento costuma nos colocar diante de perguntas que provavelmente não faríamos se tudo estivesse funcionando bem e, por isso, poucas vezes dirigimos a mesma atenção para aquilo que sempre deu certo, para as características que nos trouxeram reconhecimento, abriram caminhos e ajudaram a construir boa parte da vida que temos hoje.

Por que alguém questionaria a própria responsabilidade se foi sendo responsável que conquistou confiança, reconhecimento e espaço? Que razão teria para desconfiar da independência que permitiu atravessar momentos difíceis sem depender de ninguém ou pensar sobre a própria exigência quando foi justamente ela que ajudou a construir uma carreira, alcançar resultados e chegar a lugares que dificilmente teriam sido alcançados sem tanto empenho?

Ser competente, responsável, disciplinado, independente, ter disposição para enfrentar dificuldades e continuar realizando são qualidades, e não precisamos transformar em problema aquilo que fazemos bem apenas porque decidimos conhecer melhor a nós mesmos. O que merece atenção é a história que existe por trás da maneira como cada pessoa aprendeu a ser responsável, competente, forte ou independente e, principalmente, o quanto ela ainda consegue escolher quando utilizar esses recursos e quando pode simplesmente não precisar deles.

Uma criança não sabe explicar por que algumas coisas parecem funcionar melhor do que outras dentro da própria família, porém aprende muito cedo a perceber. Percebe o que acontece quando corresponde ao que esperam dela, quando tira uma nota boa, quando ajuda, quando não dá trabalho, quando erra, quando precisa demais ou quando decepciona. Dentro das relações das quais depende, vai entendendo quais comportamentos aproximam, quais provocam conflito, onde encontra reconhecimento e de que maneira consegue preservar os vínculos que são fundamentais para ela. Muito do que aprendemos sobre como precisamos ser passa, assim, a fazer parte da nossa maneira de existir sem que saibamos exatamente quando começou.

A criança cresce e pode se tornar o adulto que todos consideram extremamente responsável. Aquele que amadureceu cedo porque as circunstâncias exigiram descobre que sabe resolver problemas como poucas pessoas, quem recebeu reconhecimento pelo desempenho aprende a se dedicar, estudar mais, entregar mais e não se contentar com qualquer resultado, enquanto aquele que se decepcionou algumas vezes quando precisou depender de alguém pode construir uma independência admirável e passar a vida ouvindo o quanto é forte por conseguir fazer tudo sozinho.

Durante muito tempo, tudo isso pode funcionar muito bem, tão bem que dificilmente alguém se pergunta quanto custa continuar ocupando esse lugar.

A pessoa competente recebe cada vez mais responsabilidade porque todos sabem que ela dará conta, aquela que resolve tudo passa a ser procurada sempre que alguma coisa precisa ser resolvida, quem raramente pede ajuda acaba cercado por pessoas que acreditam que ajuda nunca será necessária, enquanto aquele que suporta muito pode passar anos sendo reconhecido pela força sem que ninguém, inclusive ele próprio, se pergunte se gostaria de não precisar ser forte o tempo inteiro. Aos poucos, uma característica que fazia parte dos recursos daquela pessoa começa a ocupar um espaço muito maior na maneira como ela se reconhece e naquilo que acredita precisar continuar sendo.

Gostar de fazer as coisas bem feitas pode se transformar numa dificuldade enorme de lidar com o erro. A independência que durante tantos anos foi motivo de orgulho pode tornar difícil pedir ajuda, confiar ou dividir o peso da vida com alguém. A responsabilidade pode fazer com que uma pessoa assuma cada vez mais, mesmo quando já está exausta, e aquela capacidade admirável de continuar realizando pode tornar o descanso desconfortável, acompanhado de culpa e da sensação de que sempre existe alguma coisa que deveria estar sendo feita.

É nesse ponto que uma qualidade começa a cobrar um preço.

Em Recordar, repetir e elaborar, Freud escreve sobre aquilo que não retorna apenas como lembrança, mas reaparece na própria maneira de agir. Costumamos reconhecer uma repetição quando ela produz sofrimento evidente, como alguém que se envolve sucessivamente em relações muito parecidas, termina sempre diante dos mesmos conflitos ou volta a fazer aquilo que tantas vezes prometeu não fazer. Só que nem tudo o que repetimos parece um problema e algumas repetições funcionaram tão bem, receberam tanto reconhecimento e foram tão importantes para a nossa adaptação que dificilmente pensaríamos em questioná-las.

Se ser impecável trouxe reconhecimento durante boa parte da vida, deixar de sê-lo pode parecer perigoso. Se não precisar de ninguém protegeu de muitas decepções, depender exige entrar em contato com uma vulnerabilidade que durante anos aprendemos a evitar. Se assumir tudo impediu que as coisas saíssem do controle, dividir uma responsabilidade significa suportar a possibilidade de que o outro faça diferente e, se cada conquista trouxe durante algum tempo uma sensação de valor, parar de conquistar pode colocar a pessoa diante de perguntas sobre si mesma que permaneceram encobertas enquanto ela estava ocupada realizando.

Podemos passar muitos anos sem perceber que já não existe tanta liberdade nessas escolhas. Uma pessoa pode ter uma carreira admirável e viver com a sensação de que, a qualquer momento, alguém descobrirá que ela não é tão boa quanto parece, pode conquistar uma independência da qual se orgulha e não conseguir confiar em ninguém o suficiente para dividir o peso da própria vida, assim como pode chegar sucessivamente aos lugares que desejou e experimentar muito pouco cada chegada, porque a próxima conquista já começou a ser necessária.

Nada disso invalida o que foi construído. Uma carreira continua sendo uma carreira, uma conquista continua sendo uma conquista e competência continua sendo competência. O que precisamos compreender é a relação que estabelecemos com aquilo que fazemos e quanto de liberdade ainda existe na maneira como vivemos essas características.

Duas pessoas podem trabalhar muito e existir uma distância enorme entre o que acontece dentro de cada uma delas. Uma pode estar envolvida com um projeto que faz sentido, desejar construir alguma coisa e compreender que haverá períodos em que precisará se dedicar mais, enquanto outra pode trabalhar exatamente as mesmas horas e não conseguir parar sem sentir culpa, precisar de cada resultado para confirmar que continua sendo boa ou ter feito do trabalho um lugar tão importante para a própria identidade que já não sabe muito bem quem é quando não está produzindo. Para quem observa de fora, o comportamento pode parecer praticamente o mesmo; o que muda é aquilo que cada uma precisa encontrar através dele.

É também nesse ponto que autoconhecimento e performance precisam conversar, não para encontrarmos maneiras mais eficientes de produzir ainda mais, organizar melhor o tempo ou continuar exigindo de nós aquilo que já exigimos sob uma linguagem emocionalmente mais sofisticada, e sim para compreender de onde vem essa necessidade de dar conta, o que torna o erro tão difícil de suportar, o que sentimos quando precisamos pedir ajuda, por que descansar incomoda tanto ou por que uma conquista parece perder o valor tão rapidamente depois de alcançada.

Aquilo que aprendemos a fazer para conseguir alguma coisa pode continuar existindo mesmo quando aquela necessidade já não existe da mesma maneira. Quem aprendeu a ser forte porque não havia com quem contar pode continuar não contando com ninguém quando já existem pessoas disponíveis, quem precisou ser impecável para receber reconhecimento pode continuar tentando merecê-lo mesmo depois de construir uma vida na qual não precisa provar o próprio valor a cada resultado, e quem encontrou segurança controlando tudo pode seguir assumindo responsabilidades que já poderiam ser divididas, terminando exausto diante de uma vida que, curiosamente, todos acreditam que administra tão bem.

O processo de autoconhecimento também nos coloca diante dessas partes de nós que admiramos e nos ajuda a compreender como foram construídas, o que nos ofereceram, do que nos protegeram e qual lugar ainda ocupam na nossa vida. Não precisamos deixar de ser fortes, competentes, responsáveis, disciplinados ou independentes; podemos continuar reconhecendo essas características como parte importante de quem somos e, ao mesmo tempo, perceber quando estamos fazendo uso delas e quando já não sabemos existir sem elas.

Porque alguém pode continuar gostando de fazer bem feito sem transformar qualquer erro numa ameaça ao próprio valor, pode continuar independente e permitir-se precisar de alguém, pode continuar responsável sem assumir aquilo que pertence aos outros e pode continuar ambicioso sem fazer de cada nova conquista uma condição para sentir que vale alguma coisa. Quando começamos a compreender a história que existe por trás daquilo que fazemos tão bem, a qualidade não desaparece; o que pode desaparecer, aos poucos, é a obrigação de permanecer ocupando aquele lugar o tempo inteiro.

Por isso, algumas perguntas importantes sobre nós não estão apenas naquilo que não funciona. Vale olhar também para alguma característica pela qual você sempre foi reconhecido, aquela que abriu caminhos, ajudou a atravessar momentos difíceis, trouxe resultados e que provavelmente você também aprendeu a admirar em si mesmo, tentando compreender quando ela começou a ocupar um lugar tão importante, o que você encontrou sendo assim, o que conseguiu evitar, o que recebeu das pessoas e, principalmente, o que acontece dentro de você quando, por alguma razão, não consegue ocupar esse lugar.

Uma qualidade não deixa de ser uma qualidade quando compreendemos a história que existe por trás dela. Conhecer essa história pode nos devolver algo que, em algum momento, ficou pelo caminho: a possibilidade de continuar sendo muito bons naquilo que fazemos sem precisar pagar por isso com partes importantes de quem somos.

Ana Matos – Comportamento e Performance focada no ser humano

Casal refletindo sobre expectativas e conflitos em um relacionamento amoroso

Relacionamentos e expectativas: Quando amamos o outro a partir da nossa própria história

Você já observou que quando começamos um relacionamento, não chegamos sozinhos? Levamos conosco a nossa história, aquilo que aprendemos sobre amor, as experiências que tivemos, as relações que nos marcaram, aquilo que recebemos e, também, aquilo que sentimos que nos faltou. Ainda levamos uma ideia de como gostaríamos de ser amados, de como imaginamos que uma relação deveria funcionar, de como o outro deveria demonstrar que nos ama, e muitas vezes nem percebemos que estamos colocando sobre aquela pessoa expectativas que começaram a existir muito antes de conhecê-la. E essas expectativas, geralmente, estão baseadas no que aprendemos dentro do nosso núcleo familiar, do ambiente que crescemos.

Queremos que o outro nos compreenda, que perceba quando alguma coisa não está bem, que saiba quando precisamos de acolhimento, que reconheça aquilo que sentimos sem que precisemos explicar. Esperamos que ele saiba exatamente como nos amar, como se existisse uma maneira correta de fazer isso e como se essa maneira fosse igual para todas as pessoas. E quando ele não corresponde, quando não percebe, quando não oferece aquilo que imaginávamos receber, a frustração pode ser muito maior do que a situação em si parece justificar.

Isso acontece porque nem sempre estamos reagindo somente ao que está acontecendo no presente. Em alguns momentos, estamos reagindo também a tudo aquilo que aquela situação desperta dentro de nós que pode trazer uma carga a mais com base na nossa história e em como interpretamos certas situações.

Por exemplo, uma pessoa que cresceu sentindo que precisava fazer muito para ser reconhecida pode passar a esperar do parceiro uma demonstração constante de valorização. Quem aprendeu desde cedo a temer o abandono pode interpretar uma distância como sinal de desinteresse. Quem não se sentiu suficientemente acolhido pode esperar que o outro perceba cada necessidade, cada tristeza, cada silêncio, como se finalmente tivesse encontrado alguém capaz de oferecer aquilo que ficou faltando.

E é aí que o relacionamento começa a carregar um peso que não pertence somente a ele.

Porque ninguém chega ao outro sem história. E a nossa história interfere naquilo que esperamos, naquilo que toleramos, naquilo que cobramos e até naquilo que interpretamos como amor. Sem perceber, podemos transformar a pessoa que amamos em responsável por reparar dores que ela não causou, preencher vazios que existiam antes dela e responder perguntas que pertencem à nossa própria história.

Queremos que o outro nos dê aquilo que um dia não recebemos, queremos ser escolhidos para finalmente sentir que somos “escolhidos”, queremos ser compreendidos sem precisar falar porque, em algum lugar da nossa história, existiu uma necessidade de ser compreendido que não encontrou resposta, queremos ser cuidados de uma determinada maneira porque foi daquela maneira que sentimos que deveríamos ter sido cuidados.

E quando isso não acontece, podemos nos ressentir profundamente.

O outro passa a ser aquele que não entende, que não percebe, que não se importa, que não faz o suficiente. A relação vai se tornando um lugar de cobranças e decepções, enquanto cada um continua tentando receber do outro algo que, muitas vezes, nem consegue nomear.

É por isso que alguns conflitos parecem nunca terminar. A discussão muda, a situação muda, as palavras mudam, mas alguma coisa permanece exatamente no mesmo lugar. Não estamos mais discutindo apenas sobre aquela mensagem que não foi respondida, sobre aquela demonstração de afeto que não aconteceu, sobre aquele final de semana em que o outro preferiu fazer outra coisa. Estamos discutindo sobre aquilo que tudo isso representa para nós.

E quando não conseguimos perceber essa diferença, acabamos acreditando que o problema está sempre no outro.

É claro que existem comportamentos que precisam ser questionados. Existem necessidades legítimas dentro de uma relação, existem limites que precisam ser respeitados e existem atitudes que não podem ser justificadas em nome do amor. Compreender a própria história não significa retirar do outro a responsabilidade por aquilo que ele faz. Significa também assumir a nossa responsabilidade sobre aquilo que colocamos dentro da relação.

Porque uma coisa é dizer ao outro o que precisamos; outra é esperar que ele descubra. Uma coisa é desejar cuidado; outra é transformar o outro em responsável por curar todas as nossas feridas. Uma coisa é querer ser amado; outra é exigir que alguém prove o nosso valor o tempo inteiro.

E existe ainda uma questão que considero muito importante: precisamos permitir que o outro seja outro. E isso parece óbvio, mas não é.

Quando amamos alguém, criamos imagens, expectativas, desejos e uma ideia de futuro. Aos poucos, aquela pessoa deixa de ser apenas quem ela é e passa a ocupar também o lugar que imaginamos para ela na nossa vida. E quando a realidade não corresponde à imagem, sentimos como se alguma coisa tivesse sido tirada de nós.

Só que, muitas vezes, não estamos perdendo a pessoa. Estamos perdendo a fantasia que construímos sobre ela. É justamente essa questão que me veio à cabeça ao assistir a O Convite, filme dirigido por Olivia Wilde, que chegou aos cinemas brasileiros em julho de 2026. A história acompanha Joe e Angela, um casal que vive um momento de desgaste na relação e cuja rotina é atravessada pelo encontro com os vizinhos, um casal que desperta desejos, comparações e desconfortos que estavam, de alguma maneira, adormecidos. O filme coloca em cena, com humor e bastante desconforto, aquilo que pode acontecer quando olhamos para uma outra relação e começamos a imaginar que ali existe alguma coisa que está faltando na nossa.

E é nesse ponto que o filme conversa com a reflexão deste texto. Porque olhar para o outro e imaginar que ele possui aquilo que precisamos é muito diferente de compreender o que, de fato, está acontecendo dentro da nossa própria relação. Às vezes, aquilo que parece estar no outro está, na verdade, revelando um desejo nosso que ainda não conseguimos reconhecer ou comunicar.

Porque amar uma pessoa real exige aceitar que ela tem uma história que não é a nossa, que possui limites que não são os nossos, que sente de maneira diferente, que nem sempre vai compreender aquilo que sentimos da forma como gostaríamos e que também terá necessidades que nos serão difíceis de atender. O outro não veio ao mundo para completar a nossa história. Ele tem a própria e nós também. É no encontro entre essas duas histórias que uma relação acontece.

Por isso, amor e frustração caminham juntos. Podemos amar profundamente alguém e, ainda assim, sentir raiva. Podemos desejar estar perto e, em determinado momento, querer distância. Podemos admirar e nos decepcionar. Podemos cuidar e ferir. Podemos ser generosos em uma situação e egoístas em outra. Isso não torna o amor falso. Torna a relação humana.

O problema começa quando acreditamos que o amor deveria nos poupar dessas contradições. Quando esperamos que amar signifique nunca frustrar, nunca decepcionar, nunca sentir raiva, nunca desejar algo diferente. Quando transformamos qualquer conflito em sinal de fracasso da relação ou qualquer frustração em prova de que o outro não nos ama o suficiente.

Uma relação não se sustenta porque duas pessoas conseguem satisfazer todas as expectativas uma da outra. Ela se constrói quando duas pessoas conseguem reconhecer o que trazem para aquele encontro e começam a perceber onde termina a própria história e onde começa a história do outro.

Por isso, o autoconhecimento é importante para a construção dos relacionamentos. Porque quanto menos conhecemos as nossas próprias necessidades, mais facilmente esperamos que o outro descubra por nós. Quanto menos reconhecemos as nossas feridas, maior a possibilidade de colocarmos sobre o relacionamento a tarefa de repará-las. Quanto menos compreendemos os nossos medos, mais facilmente interpretamos os comportamentos do outro a partir deles.

Conhecer a própria história não impede a frustração. Impede que toda frustração se transforme imediatamente em acusação, em guerra, em desgastes, em fim.

Quando conseguimos reconhecer que determinada situação despertou em nós uma dor antiga, podemos conversar sobre ela de outra maneira. Quando percebemos que estamos esperando do outro algo que nunca disse, podemos começar a falar. Quando reconhecemos que uma cobrança nasce do medo de ser abandonada, podemos compreender que o medo existe sem transformá-lo automaticamente em prova de que o outro vai nos abandonar.

O relacionamento deixa de ser um lugar onde duas pessoas tentam preencher os vazios uma da outra e passa a ser um espaço onde duas histórias diferentes podem se encontrar.

E longe de significar que tudo será fácil. Significa apenas que deixamos de exigir que o amor seja uma espécie de reparação permanente daquilo que vivemos antes dele.

No fundo, uma das coisas mais difíceis de amar alguém é conseguir enxergá-lo para além daquilo que precisamos que ele seja. E uma das coisas mais difíceis de ser amado é permitir que o outro nos conheça para além daquilo que esperamos que ele faça por nós.

Quando começamos a fazer esse movimento, a relação deixa de ser apenas o lugar onde procuramos receber aquilo que nos faltou e pode se transformar em um lugar de encontro. Um encontro entre duas pessoas que trazem histórias diferentes, desejos diferentes, feridas diferentes e, ainda assim, escolhem construir alguma coisa juntas.